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No tempo da minha avó

 Minha mãe sempre diz frases do tipo moralista e depois acrescenta a autoria ”como dizia minha mãe”. Na última vez que ouvi isso, fiquei imaginando se daqui alguns anos, se eu tiver filhos, serei capaz de me lembrar desses ditos populares, para numa ocasião oportuna, lançar uma frase do tipo: “Deus ajuda quem cedo madruga” ou ainda ”antes de casar sara”, e para mim a melhor, “o que não mata, engorda”, e acrescentar a autoria “como dizia minha mãe”, ou melhor, “como minha mãe dizia, que dizia sua mãe”. Em ultimo caso, poderei dizer “como dizia a minha avó, segundo minha mãe”, porque não tive oportunidade de ouvir diretamente dela.

            Uma coisa que me intriga, é pensar na força que os ditos populares tinham na época da minha avó. Esses ditados eram levados muito a sério. Dizê-los impunha uma postura de quem havia herdado uma sabedoria ancestral e incontestável. Nos dias de hoje, não é raro ouvirmos algumas frases mais conhecidas, mas afirmar que o significado delas esteja correto é meio duvidoso. É quase que um vício deixar escapar um ‘ditadinho’ para tentar algum efeito. Você está numa conversa empolgada com uma amiga sobre o namorado bonitão da outra amiga que a traiu e deixou todo mundo espantado, devido sua postura de rapaz sério. De repente o assunto se esgota e vocês não têm mais o que dizer… É fácil soltar uma frase do tipo: É amiga, “nem tudo que reluz é ouro”!

            Lembro-me até hoje do dia em que terminei meu namoro. Foi há três anos. Passei dias amuada, invejando as belas e amadas mocinhas dos filmes da Sessão da Tarde e chorando pelos cantos. Minha mãe tentando me animar. Acho que foi o período em que me apaixonei pelos ditados (minha mãe sempre soube usá-los na hora certa). Se não comia, ouvia: “saco vazio não pára em pé” e me obrigava a engolir um ‘Miojo’ aguado. Se chorava e lamentava da minha infelicidade momentânea, ela me lembrava que “não há mal que perdure, nem dor que não se cure”, e claro me contava histórias e mais histórias de casos parecidos e que terminavam sempre com um final feliz. Nas horas do conselho materno, (sabedoria que não deve ser ignorada), sempre gostei de ouvir que “Deus escreve certo por linhas tortas”. E claro que nos momentos de raiva, em que me reservava para maldizer o inútil do meu ex, eu me encantei por uma frase em especial: “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Não que eu desejasse que ele se desse mal, mas está aí um ditado que não me deixa mentir, “aqui se faz, aqui se paga”. Mas sei lá, acho que nesse caso, o ditado furou. Ele está muito bem, obrigada. Hoje nem sei por que me dei ao trabalho de guardar “luto” por tanto tempo. Ele era do tipo “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”, como dizia minha mãe, segundo sua mãe costumava dizer.

Mas o importante é saber que no tempo da minha avó, os ditados tinham uma força ética e moral inviolável. Hoje nós conhecemos, respeitamos e até nos arriscamos a soltar algumas frases mais conhecidas. O problema é que, nos esquecemos fácil de seus significados, e dizer por dizer pode sair feio, por isso, costumo afirmar que “em boca fechada não entra mosca” e “falar é prata, calar é ouro”.

  

Mauren Ribeiro

 


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