Pensando bem, se fossem escrever algum filme sobre mim eu jamais seria a mocinha da história. Não que não tenha qualidades para a personagem, isso acho que até tenho (ou tento..). Mas o maior problema das heroínas que superlotam os contos mais dramáticos da dramaturgia (ops…) ou da literatura, é que elas são boazinhas demais! Eu não teria sangue de barata para passar uma vida com lágrimas nos olhos, chorando pelos cantos, agüentando traições e depois perdoando o canalha que me fez sofrer. Seria forte sim, como algumas são, mas teria uma pitada de real. Para mim não existem pessoas que são 100%, 24 horas por dia, sempre boas e distintas, sempre com a intenção de ajudar alguém e sem coragem para qualquer “canalicizinha”. Tudo bem, existem pessoas boas, mas bobas não se encontram mais hoje em dia né?! Existe até um ditado muito utilizado que ‘a vida é uma selva, vence quem sabe se defender, lutar com unhas e dentes pela sobrevivência’. O que existe é gente falsa, lobo em pele de cordeiro mesmo. Se faz de bonzinho, te conquista, se faz de coitadinho e quando pode, te esfaqueia pelas costas… Aí você só percebe a covardia quando é tarde demais.
Eu gosto e admiro gente chata. Gente que sabe ser sincera e honesta, sabe ser gentil, verdadeira e sabe até ajudar quando preciso. São pessoas geralmente mal interpretadas, tidas por metidas, arrogantes, mas não fazem nada além do que todo mundo deveria fazer, viver a própria vida. Não se interessam por fofocas de vizinhos e raramente se misturam em rodinhas de happy-hour para falar mal do chefe ou “malhar” algum pobre coitado colega de trabalho. Não estão nem um pouco preocupados em agradar. São o que são e pronto! Quem gosta dessas pessoas, gosta pelo que realmente são e não pelo que interpretam na vida social.
As pessoas chatas são inteligentes e cultas. São diretas e pode ser que algumas vezes sejam maldosas, não pelo prazer de o serem, mas porque possuem uma personalidade forte e marcante. Precisam ser notadas, não só pela chatice que incomoda a opinião pública, mas também pelas conquistas e vitórias que acumulam no decorrer da vida. São batalhadoras e não costumam sonhar, idealizam. Tomam posse daquilo que almejam antes mesmo de possuírem, pois têm o dom de serem confiantes, e confiança é diferente de arrogância. São determinadas e perfeccionistas. São também combatentes corajosos que não desistem no primeiro obstáculo, agüentam até o limite e quando desistem, não é por serem covardes, mas por não estarem nunca a mercê da hipocrisia e desonestidade que assola a nossa sociedade.
Pessoas chatas não precisam andar com os dentes arreganhados para parecem simpáticos (se o são é quase sempre genético). Não precisam de simpatia, eles colecionam admiração de muita gente (mesmo que essas próprias pessoas não admitam). Por serem sempre os mesmos, faça chuva ou faça sol, os chatos são invejados por pessoas que precisam fingir todos os dias. Você encontra no elevador aquela mocinha do andar de baixo que está sempre sorrindo, desejando “bom dias” até para o poste, mas em casa só os familiares sabem o quanto é insuportável e mal-educada. Ela gentil e delicadamente lhe sorri e comenta “como o dia está lindo, como o sol está agradável e as flores? Como estão perfumadas”! O olhar do chato nem precisa de interpretação. Fala por si. Não que não admire as mesmas coisas, só não precisa anunciar a qualquer um aquilo que está sentindo, ou aquilo que o encantou. Ele admira e pronto. Todo sol se põe. Toda flor murcha. Todo dia vira noite… E todos os dias você têm que repetir o quanto se encanta com as criações divinas?
Outra coisa de chato que me atrai é que mesmo tendo opiniões, ele não precisa colocar uma faixa na cabeça e anunciar aos quatro ventos. Ele o guarda para si e na hora certa se precisar, ele elegantemente expões seus pontos de vista. É acima de tudo uma questão de que hoje as pessoas mudam muito fácil de opinião, se baseiam muito pela moda. No Verão são hippies porque leram numa revista “chiquérrima” e antenada que em “New York” todos estão se vestindo assim. Quando chega o inverno, o certo mesmo é ser gótico porque todo mundo está saindo de preto na Europa. Agora, que graça tem você estar sempre igual a todos? O mundo prega a individualidade (principalmente em comerciais de perfume na televisão), mas vive querendo impor uma ditadura a toda sociedade. “A moda desse Verão é cabelo louro-acinzentado”. Mulheres em debandada que não querem ficar fora das tendências, lotam os salões para terem o cabelo da mesma cor. “Essa estação pede ‘retrô’ e listrado”. O resultado: uma multidão nas ruas cheirando a naftalina e parecendo palhaços de circo.
Os chatos não ligam para moda. Querem ser autênticos, originais e se preocupam mais com o que são por dentro do que por fora, não que o cuidado físico seja dispensado, o que não acontece é um alistamento cego à uma ditadura bizarra de ser carne, osso e… só! E é uma qualidade de pessoas que têm ousadia para se destacar de uma remessa de seres humanos com um defeito de fábrica: a mediocridade.
Esses são apenas alguns detalhes que admiro em gente chata e concluo esse texto com um pedido de desculpa aos bonzinhos. Fiquem tranqüilos, o mundo ainda tem lugar para todos. Por enquanto…
Mauren Ribeiro
Direto ao ponto. Excelente!
Simplesmente perfeito.
Adorei!
Será que sou chata, ou boazinha!? rsrsrs
bjos