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Out
08

Prazer pela metade

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido – uma só. Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa. Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação. O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano. A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. A gente sai pra jantar, mas come pouco. Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons. Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de ‘fácil’). Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta. Quer  beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo. Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai. Tantos deveres, tanta preocupação em ‘acertar’, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação… Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão. Às vezes, dá vontade de fazer tudo ‘errado’ – deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos. Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Recusar prazeres incompletos e meias porções. Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim: ‘Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora’. Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem  pressa no corpo, o coração saciado. Um dia a gente cria juízo. Um dia. Não tem que ser agora. Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate, um sofá pra eu ver 10 episódios do ‘Law and Order’, uma caixa de trufas bem macias e o Clive Owen embrulhado pra presente- não necessariamente nessa ordem. Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.

(Leila Ferreira)

4 Respostas to “Prazer pela metade”


  1. 1 Fran
    Outubro 26, 2008 ás 9:58 am

    Ehh…sempre estamos tão preocupadas com a opinião alheia, que vamos, aos poucos, esquecendo de realizar os nossos verdadeiros desejos. Temos que parar de nos cobrar tanto: “Tenho que fazer aquilo”, “Tenho que ser assim”, e por aí vai. Vamos viver as coisas simples da vida com maior intensidade. Se fizermos o contrário, possivelmente, estaremos vivendo uma vida superficial e correremos o risco de esquecer quem somos.
    Beijos, Mau!

  2. 2 Tiago
    Outubro 26, 2008 ás 3:00 pm

    Fiz 4 litros de sorvete esse findi. Se o seu problema é sorvete eu resolvo :D

    Bjos LORA lindona

  3. 3 Gusta
    Outubro 27, 2008 ás 9:41 am

    Pois é Mauren,
    transgressões são necessariamente necessárias. Mas para fugir da regra tb é preciso regras, senão cairemos no óbvio e ridículo. Você está no caminho certo. Joga pro ar e vê o que acontece.
    Bjão

  4. Outubro 27, 2008 ás 5:37 pm

    Pois é, para se transgredir regras, há q ser necessário que as mesmas existam…. pra alguma coisa elas devem servir, e acho que tudo depende da forma como você olha pra elas: seja que foram feitas pra serem quebradas, seja que foram feitas pra serem cumpridas. Mas cabe escolher chutar alguns baldes, de vez em qdo.


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