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Profissão: Coveiro

ANÔNIMOS GUARDIÕES DOS MORTOS 

OS PERSONAGENS

Mauro da Conceição, 40 anos, coveiro há três anos.

 

Quando era criança, Mauro tinha o hábito de brincar nos arredores do cemitério de Pedreira onde nasceu. Perambulando por lá, era comum presenciar exumações e enterros, então nunca teve problemas em lidar com esse tipo de trabalho quando apareceu a oportunidade. Em 2003 prestou concurso para o cargo em Jaguariúna e passou, aí começou uma nova vida. Na carteira de trabalho a profissão de coveiro acaba causando certa estranheza nas pessoas. “Muita gente olha com cara de assustado e é normal ficarem perguntando se eu não tenho medo”, disse rindo, se lembrando da curiosidade das pessoas. “Não tenho medo de morto, tenho medo é de vivo”, acrescenta.

 

Antonio Ferreira Martins, 53 anos, coveiro há quatro anos.

 

“No começo, quando chegava do trabalho minha mulher me fazia tirar toda a roupa antes de entrar em casa”, disse Antonio relatando como a escolha da profissão causou certo desconforto na esposa. “Hoje ela já acostumou, até ajuda aqui no cemitério lavando alguns túmulos”, complementa. Antes de prestar concurso, Antonio era tratorista e hoje diz que provavelmente irá se aposentar na profissão. Quando era mais novo, ele nem queria saber de chegar perto de um cemitério, hoje é o lugar onde passa a maior parte do seu dia. “A única coisa ruim aqui é enterrar criança e jovem. Quando acontece, não tem como a gente também não se comover”, contou.

 

 

FÉ E PROFISSÃO

A profissão de coveiro exige muita fé. Lidar todos os dias com a morte pode acabar não sendo saudável para quem não tem crença nenhuma, como afirmou Mauro. “É comum no começo você ficar um pouco impressionado com o que vê, mas com o tempo e com a rotina tudo acaba ficando banal, mas é importante você crer em alguma coisa”, disse Mauro. Ele e o companheiro de trabalho são evangélicos e sempre que podem, costumam fazer orações para que todo espírito negativo de morte passe longe deles. “O mais importante para se trabalhar nesse serviço, é estar bem de espírito com Deus. Uma pessoa fraca não vai trabalhar direito, vai ficar impressionada. Temos que acreditar em Deus né, o resto a gente vai levando como pode”, me contou Antonio quando lhe perguntei se ele não tinha medo de assombrações, um assunto muito questionado por muita gente que fica sabendo que são coveiros. “Tem gente que tem medo de cemitério, mas isso aqui é uma paz, os mortos não estão aqui, só os restos mortais”, completou Antonio.

A morte não os assusta. Talvez por estarem todos os dias em contato direto com ela, aprendem a lidar mais fácil com o que consideram apenas mais uma etapa da vida. “O assunto aqui é só morte. Fulano que morreu, beltrano que está para morrer, então fica difícil fugir disso. Mas fora daqui a gente procura esquecer um pouco o assunto”, disse Mauro que costuma ouvir pessoas que vão visitar os túmulos e lamentam a perda dos entes queridos e gostam de contar como eram quando estavam vivos, e assim, vai acumulando uma bagagem de histórias tristes, histórias de perda, mas também histórias emocionantes. “Outro dia chegou um senhor aqui que queria encontrar o túmulo de um primo que havia morrido há muitos anos ainda criança. Eu o ajudei a achar o local onde o menino estava enterrado e era de chão batido. Uma semana depois ele voltou e mandou construir uma pequena caixa de cimento, colocou uma foto e uma dedicatória. Depois disse que poderia morrer em paz, pois tinha de alguma forma, perpetuado a memória do primo”, contou Mauro que afirma que essa foi uma das histórias mais bonitas que presenciou no cemitério.

Trabalhar o emocional pode ser difícil ao lidar com a dor, com a perda, conseqüências que a morte traz. Antonio que perdeu um filho de seis meses a alguns anos diz que o mais difícil é trabalhar em enterros de crianças e seus olhos se encheram de lágrima ao contar sobre o enterro de uma menina de cinco anos que teve que participar. “Quando cheguei no velório e vi a menina, parecia uma boneca, linda, linda. Voltei vinte anos atrás e revivi tudo de novo. Não consegui trabalhar naquele enterro, pedi para que outros fossem no meu lugar”. Antonio disse ainda que a fé em Deus o ajudou muito quando perdeu o filho e sempre que vê a dor das famílias que perdem um ente querido, ele entende o sofrimento e ora todos os dias para que Ele possa confortar o coração das pessoas. “Lidar com a morte não é fácil, mas precisamos ter força para continuar, pois a morte não é o fim”, acredita o coveiro.

 

TRABALHO EM EQUIPE

“Nós somos uma irmandade mesmo. Se acontece alguma coisa entre nós, resolvemos entre nós. Damos bronca, brincamos, nos ajudamos e compartilhamos muitas histórias também”, disse Mauro, o mais brincalhão de todos. “Ele gosta de brincar e vira e mexe tem gente com flor enroscada no bolso passando vergonha ao andar por aí”, entregou Antonio sobre o colega de trabalho. Dono de um talento artístico, um dos passa tempos de Mauro é o desenho. Sempre que acontece algum fato engraçado ele corre pegar um papel e um lápis para registrar a cena. “Ainda bem que todo mundo entende que é brincadeira, porque a gente já vê aqui tanta tristeza, então temos que saber tirar vantagem das coisas engraçadas que acontecem”, explica Mauro.

Histórias engraçadas não faltam, o que falta às vezes é tempo para Mauro desenhar tudo. “Um fato engraçado que a gente teve aqui foi quando tivemos que exumar um corpo e o senhor ainda estava com a pele intacta. Na hora a gente levou um susto porque já estava enterrado há anos, mas aí quando o colocamos na carriola para transportá-lo, o corpo que não estava rijo começou a balançar de um lado para outro, balançando a cabeça, os braços, as pernas (risos) parecia que estava falando e gesticulando nervosamente”, contou Mauro segurando o riso ao se lembrar do ocorrido.

No dia a dia de trabalho, os coveiros se deparam com muita coisa e sempre quando existe algum serviço mais difícil, todos acabam colaborando. “Tem um serviço que a gente chama de “porquidade”, que não existe no dicionário, nós que criamos aqui para quando a gente tem que exumar um corpo que ainda está em decomposição e é uma tarefa mais nojenta né, nesses trabalhos vem todo mundo, coveiro, pedreiro, porque aqui a gente é uma equipe e sempre acabamos fazendo um pouco de tudo”, disse Mauro ao contar sobre a o caso da exumação de um corpo que ainda estava em estágio de decomposição e todos os funcionários ajudaram no trabalho.

Quando há tarefas assim, todos utilizam equipamentos de segurança como luvas, botas e máscaras para não correrem o risco de contaminação. “Não vemos nosso trabalho como uma coisa suja. Pode ser estranho para muita gente, mas apesar de termos um adicional de salubridade por estarmos sujeitos a contaminações, é raro quando temos trabalhos como exumação de corpos que morreram recentemente, só em casos judiciais”, disse Mauro. “É, mas mesmo assim, tem gente que ainda tem um certo preconceito sabe. Eu mesmo tem um conhecido meu que não pega na minha mão”, complementa Antonio que ainda brinca com a situação ao dizer que leva na esportiva e sempre dá um jeito de quebrar o gelo. “Acabo levando numa boa. Tem vez que fico enchendo o saco dele e brinco ‘pega na minha mão que hoje não encostei em defunto não’ e chego bem pertinho mesmo”, contou rindo o coveiro.

 

FUTURO

Ser coveiro pode não ser a profissão dos sonhos de ninguém, mas também não é a pior profissão do mundo. “Dou graças a Deus por ter conseguido esse emprego. Eu acredito que tenho capacidade para tentar outra coisa, um emprego melhor, mas gosto do que faço. A gente acostuma e enquanto eu ainda estiver conseguindo sustentar a minha família eu vou continuar aqui sim”, afirmou Mauro que apesar de ter o hobby de desenhar e segundo os colegas de trabalho ser um grande desenhista, ser coveiro não é nenhuma função desmerecedora. “É claro que sempre vai ter gente que vai me olhar torto, achar estranho eu gostar de ser coveiro, de trabalhar com a morte, mas eu não tenho do que reclamar, é uma profissão como qualquer outra e vivemos em sociedade onde um precisa do outro, eu faço com orgulho meu trabalho aqui”, conclui o orgulhoso coveiro.

            Antonio também gosta do que faz, mas se tivesse uma oportunidade para tentar um cargo onde o salário fosse melhor, ele tentaria. “Acho que vou me aposentar aqui por já estou velho, mas se tivesse a chance de fazer algum curso e tentar uma outra carreira eu iria, mas não reclamo daqui não. Agradeço a Deus pelo meu emprego e faço meu trabalho com prazer”, disse.

 


1 Resposta to “Profissão: Coveiro”


  1. 1 Railton
    Julho 28, 2009 ás 10:17 am

    Gostei muito da materia, ficou muito legal alem de mim motivar bastante ja que vou prestar concurso pra coveiro aqui na minha cidade.


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