19
Jun
09

Um salto na escuridão

Perfil jornalístico sobre uma esquizofrênica

Há quatro anos, Edna se levantava pela manhã, bem cedinho, e preparava o café para toda família antes de sair para o trabalho. Ajudava o filho adolescente a se preparar, pois sempre se levantava atrasado para a aula, dava os remédios à mãe de 73 anos, esperava o marido esquentar o carro a álcool na garagem e depois saiam todos juntos. A mãe ficava na casa de outra filha, o filho na E.E. Prof. Celso Henrique Tozzi e ela e o marido iam para o trabalho. Exerciam na Flextronics a mesma função: técnicos de qualidade, com a tarefa de testar laptops e atestar o bom funcionamento dos aparelhos.

Num dia normal, como outro qualquer, Edna chegou do trabalho por volta das 19h. Preparou o jantar e lavou a louça com ajuda do marido. Depois de mais um episódio da trama amorosa entre Sol e Tião da novela América, se rendeu ao cansaço e foi dormir.

Quando fala desse dia, Edna pode contar detalhes pormenores sobre o que fez, mas não consegue encontrar uma fagulha de lembrança que lhe dê indícios sobre o que estava para sofrer. Foi apenas mais um dia comum, uma rotina seguida sem alterações, sem contratempos. E foi pela manhã que começou o pesadelo. Ao abrir os olhos não reconheceu o quarto e nem sabia quem era. Fechou os olhos apertados com as mãos no rosto e permaneceu imóvel por quase cinco minutos. Na mente, uma sensação de desordem, como se nada estivesse em seu lugar. Quando abriu os olhos pela segunda vez sabia que estava em casa, mas sentiu que alguma coisa não estava se encaixando. Tinha alguma coisa errada. Antes de ir para a cozinha preparar o café, foi para o escritório, ligou o computador e entrou em pânico. Não sabia nem ao menos iniciar o Windows, uma tarefa costumeira para quem trabalhava todos os dias com computadores. Voltou para o quarto onde o marido ainda dormia e o chacoalhou na cama.

- Não vou trabalhar hoje.

- Por quê?

- Não estou me sentindo bem.

- Está com alguma dor?

- Não.

- Então o que é?

- Não sei. Tem alguma coisa errada comigo.

Levantou-se, ainda vestida com a camisola de dormir, e foi para a cozinha preparar o café, mas ao invés disso, sentou à mesa e chorou.

 EQUOTERAPIA

Montada na égua branca de crina longa, Edna se sente como uma criança nos braços da mãe, segura. É como se o animal pudesse protegê-la de todas as vozes que a perturbam, de todos os fantasmas que a assombram. Uma vez por semana, durante alguns breves minutos, não existe mais nada no mundo a não ser uma égua branca e sua montaria. E nesses momentos de tranqüilidade, tão preciosos, são invejados por todos os outros momentos de turbulência que presencia. E para fugir de tanta confusão, Edna escreve.

E com palavras que não saem de sua boca e sim da ponta de seus dedos, consegue traduzir conflitos internos que não têm explicação, nem para ela. Mas as palavras elucidam o que não a mente não consegue compreender e no papel branco, as letras escuras ordenadas e alinhadas parecem ter sentido.

Numa tarde quente e nublada, clima pré-chuva de verão, o haras está atipicamente silencioso. Nininha está com outro paciente. Edna tem que esperar sua vez. Impaciente pede um papel e uma caneta à orientadora e senta-se sob um velho ipê que sombreia o pátio de espera. Ali, recostada num ramo de raiz, ela começa a escrever, quase sem parar, quase sem pensar. Deixa as mãos guiaram o rumo da caneta sobre a folha amassada de um caderno sujo, com impressão de que foi jogado no lixo e reutilizado.

Edna não pensa em conexão, nem em concordâncias gramaticais, verbais ou o que quer que se já. Ela quer explodir o que se acumula em seu peito, o que toma espaço em sua mente e para isso, deixa a razão de lado. Naquele momento, Edna é um sentimento que anseia pela liberdade, assim como uma terra árida, castigada pela seca, anseia a temporada de chuvas. E é assim, do nada, sem pedir licença para chegar, que a inspiração de Edna aflora de suas mãos.

 

À Nininha

Branca, forte e imponente.

A égua que monto, gosto do seu jeitinho.

Abraçada ao seu pescoço

Engole meus medos

Trouxe-me a esperança de dias melhores

Dias, horas, minutos, sem os terríveis delírios.

Traz-me a doce ilusão de ser normal e não especial

Seu caminhar leve e tranquilo me embala e me suporta

Mostrou que meu amor se expande

Traz-me histórias para contar e compartilhar

De como podemos ser felizes, com limitações

Sinto sua falta nos outros dias da semana

Gostaria de vê-la sempre, para que meus dias fossem mais leves.

Será que você é mesmo irracional?

Então porque esse amor incondicional?

Você me traz felicidade com sua delicadeza

Gostaria que coubesse na minha casa pequenina

Para que eu pudesse acariciar todos os momentos da minha vida.

Você me traz o sentido da esperança

Com sua crina leve que balança.

Eu que pensava que só amava os cachorros e gatos, me descubro,

Apaixonada pelos cavalos, por sua existência minha doce Nina.

 DIAGNÓSTICO

Edna foi para o pronto-socorro em estado de surto. A única coisa que se lembra é de ter sentado à mesa para descansar, mas quando o marido entrou na cozinha, encontrou a mulher acuada num dos cantos do cômodo se defendendo com as mãos e pedindo para se afastar. O pedido não era para ele, era para alguma coisa que somente Edna podia ver, e pela direção do olhar da mulher, era alguma coisa baixa.

- Edna?

- Sai daqui.

- Não tem nada aqui, Edna.

- Ele quer me morder, chama alguém para ajudar.

- Não tem nada aqui. Só nós dois.

Edna de repente olhou para cima. Os olhos assustados e nervosos pareciam aliviados por terem notado a presença do marido na cozinha. Contornou a mesa que a separava do marido e andou devagar, sempre observando com o canto dos olhos, o animal que a estava ameaçando.

- Como esse cachorro entrou aqui?

- Não tem cachorro nenhum aqui Edna.

- Ele não pára de rosnar, deve ser bravo.

Assim que a alcançou, o marido a abraçou e disse que ela estava protegida. Levou-a para o quarto ajudou-a a trocar de roupa. Acordou a sogra que ainda dormia e avisou que Edna não estava bem e que ia levá-la para o hospital e sem alongar a conversa saiu com mulher, que parecia pisar em ovos ao caminhar com muito cuidado, desviando de coisas invisíveis.

No pronto-socorro, o médico que a examinou disse que ela estava com depressão e receitou Rivotril, um tranqüilizante de alta potência. Depois de medicada, o marido a levou para casa e a deixou sob os cuidados da sogra para ir trabalhar. Mesmo preocupado, não podia perder um dia de serviço e precisava avisar na empresa que Edna não estava bem.

A mãe estranhou quando Edna dormiu o resto do dia e continuou dormindo por toda a noite. De manhã quando se levantou, a filha ainda dormia. Perguntou para o genro o que estava acontecendo e ao ouvir a explicação teve medo.

- A Edna já teve depressão. Isso não é depressão.

- O médico disse que é. Vamos esperar que ela acorde para ver como vai reagir.

E foi no final da tarde que Edna despertou e ao abrir os olhos, avistou um homem estranho no quarto. Agachado ao lado da cama, o homem lhe dirigiu um olhar de repreensão. Com uma voz firme e rouca gritou com ela.

- Você é burra, mulher.

Sem entender aquilo, perguntou quem ele era, mas ele parecia saber apenas uma frase.

- Você é burra, mulher.

E repetia sem parar. Gritando, cochichando, sussurrando. De repente parou. Se levantou e saiu do quarto. Edna chamou o marido, mas quem entrou no quarto foi a mãe, o marido estava trabalhando.

- Quem era esse homem que estava aqui?

- Que homem filha, não tinha ninguém aqui.

- Ele estava aqui no quarto me xingando.

- Não, não. Estamos só nós duas em casa.

Edna começou a gritar e a chorar e disse que estava louca, que tinha visto um homem, que ele tinha gritado com ela. A mãe sem saber o que fazer, ligou para o genro na empresa e contou o que estava acontecendo. Em menos de 20 minutos, Edna era novamente levada para o pronto-socorro e diagnosticada com surto psicótico.

 INTERNAÇÃO

Naquela tarde os médicos acharam melhor que Edna não voltasse para casa e sugeriram que passasse a noite no hospital. À base de outra dose de tranquilizante, passou mais de 24 anos dormindo e quando acordou estava bem. Não tinha mais nenhum fantasma a aterrorizando quando abriu os olhos e por alguns segundos ficou aliviada. Tomou café da manhã e se levantou para andar um pouco pelo quarto. E foi quando encostou os pés no chão que conseguiu ver. O quarto todo estava tomado por cachorros. Edna teve que ir pulando e se desviando dos animais para chegar à porta e quando alcançou o corredor, mais cachorros. Começou a chorar e se encolheu no chão. Sentiu-se perdida. Estava louca.

Naquela tarde foi encaminhada para um hospital psiquiátrico em Itapira. Como não tinha plano de saúde, foi internada pelo SUS e teve que dividir o quarto com outra mulher. Assim que chegou ao hospital teve um surto e foi levada para a sala de choque. Não se lembra quanto tempo dormiu depois, mas acordou com o corpo dolorido. Parecia que tinha levado uma surra. Sentou-se na cama e sua companheira de quarto a encarava. O homem estranho estava agachado ao seu lado e sorria maleficamente, sussurrando a mesma frase.

- Você é burra mulher.

Ela o ignorou e se levantou. Sem olhar para sua companheira que ainda a encarava, saiu do quarto. Assim que pôs os pés para fora, o silêncio foi rompido por um tornado irreconhecível de vozes desconexas se confundiam entre gritos e murmúrios. Não conseguiu mais distinguir o que era real e o que não era. À sua frente, dezenas de borboletas coloridas giravam sem controle ao redor de algum foco invisível. Atrapalhavam seu caminhar. Com as mãos, afastava os insetos teimavam em bater em eu rosto.

Foi para fora do prédio. Um enorme jardim se estendia ao longo do terreno. Alguns bancos de madeira pintados com tinta branca estavam vazios. À sua direita uma piscina olímpica de águas azuis refletia o sol em seu rosto. Edna caminhou até ela. Não teve vergonha de caminhar entre outros pacientes, vestida apenas com o avental verde da instituição. As vozes pediam para que ela continuasse. O homem estranho que agora caminhava ao seu lado repetia a mesma frase incessantemente.

- Você é louca, mulher.

- Você é louca, mulher.

- Você é louca, mulher.

- Você é louca, mulher.

Naquele momento, confusa com o que acontecia à sua volta, Edna não sabia distinguir o que era e o que não era real. Contornou a piscina e chegou a lateral que tinha escada. Passo a passo foi descendo e deixando a água abraçar seu corpo. Quando não conseguiu alcançar o ar para alimentar seu pulmão, sentiu o silêncio dominar sua mente. Em frações de segundos, as borboletas se dissolveram, o homem estranho desapareceu, as vozes calaram-se. Edna sentiu livre. Estava pronta para abandonar aquela vida que aprisionara-a numa realidade que não conhecia. Uma realidade ilusória. Edna havia se cansado daquela vida. Estava pronta para desistir.

Segundos depois estava sendo carregada por mãos apressadas que não conhecia. Reconheceu a sala branca de luz forte que havia estado antes, sabia que ia passar por mais uma sessão de choque. Não viu mais nada.

 ACEITAÇÃO

Edna Doiche é esquizofrênica. Hoje não tem dificuldade para falar sobre isso, mas ainda sente vergonha em declarar que ouve vozes, que vê coisas que não existem. Fala de si mesma como louca. Sabe que nunca voltará a ser normal de novo.

- Já fui atrás do deus do Espiritismo, das Testemunhas de Jeová, da Universal do Reino de Deus, da Igreja Católica. Esgotei minha fé em deuses que não me curaram. Hoje minha fé limita-se a aceitar que os medicamentos que tomo podem me ajudar a ser uma pessoa normal, mas sei que a esquizofrenia é uma doença que levarei para o túmulo. Têm dias que estou bem, têm dias que tenho crises. É como aprender a conviver com qualquer outra doença, a diferença está em seus efeitos colaterais. Com a ajuda da minha família e o apoio do meu marido e do meu filho que estiveram sempre ao meu lado, eu tenho certeza que vou conseguir seguir a vida.


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