25
Ago
09

Sem pudor e sem papas na língua

Existem diversos ditados populares que nos alertam para o risco que corremos ao julgar uma pessoa pela aparência. Minha mãe mesmo tem o hábito de concluir conversas com jargões conhecidos para enfatizar o assunto e sempre finaliza com um sonoro ‘quem vê cara não vê coração’, ou qualquer outro ditado como frase de efeito para corroborar o sermão. E eu como humana e cheia de defeitos, assim como você, já cometi o erro de muitas vezes olhar, rotular e depois quebrar a cara. As pessoas são diferentes e o que muitas vezes enxergamos com os olhos, não corresponde a nada do que aquela pessoa realmente é e as aparências continuam a nos enganar. Essa semana, quando conheci a Laila, ela chegou no jornal agitada e um pouco tímida em seu vestidinho lilás, mas aos poucos conseguiu reverter a timidez e se transformou na personagem que é conhecida pela falta de pudor e sem nenhuma vergonha. Uma pessoa que se revelou em poucos minutos e conseguiu mostrar que muito mais que um rótulo, o que importa são os valores que carrega e os sonhos que ainda busca alcançar. Uma mulher no corpo de um homem, uma mulher interior que se conhece, que se ama, que sabe o que quer e não se deixa vencer pelos obstáculos que encontra. “Eu sempre batalhei na minha vida. Eu adoro homem e acho que foi a melhor coisa que Deus criou, mas nunca sai com nenhum em troca de dinheiro, em troca de algum benefício, não misturo as coisas assim, abafa”, conta aos risos e sempre gesticulando sem parar.

Quando nasceu no dia 13 de setembro de 1980 em Diamantina, Minas Gerais, Laila foi registrada como Ricardo Alexandre e mantêm até hoje os documentos originais. Criada numa família humilde com mais treze irmãos, já aos dez anos de idade começou a se interessar por meninos e na escola trocava o lanche por um beijo de algum colega. Aos treze já morava sozinha e se sustentava com a ajuda de uma senhora que pagava seu aluguel em troca de faxina. Quando decidiu dar um outro rumo a sua vida, pegou carona com um caminhoneiro e chegou ao Rio de Janeiro onde trabalhou como cozinheira por três meses antes de vir para Pedreira com o irmão da patroa que trabalhava numa fazenda na região. Em pouco tempo seu talento para fazer amigos e sua personalidade extrovertida a transformou numa personagem curiosa e engraçada, hoje Laila conhecida como uma celebridade local dispara sem vergonha e sem papas na língua aquilo que lhe dá na cabeça. “Não tenho vergonha de nada, eu sou feliz, eu me amo! Vergonha é roubar e não poder carregar”, afirma. E sem pudor nenhum, revela que ‘bicha’ também tem sentimento.

 Laila

PRECONCEITO

Muita gente quando a encontra na rua pode até torcer o nariz, mas ela garante que nunca sofreu nenhum tipo de preconceito grave, só se lembra de uma vez, logo que chegou a Pedreira, quando três garotos bêbados abusaram dela enquanto estava bêbada. “Foi uma coisa impensada da parte deles e eu fiz até um BO (boletim de ocorrência), mas depois retirei, porque eram meninos de família e eu não queria prejudicar ninguém. Meu lema é a paz, eu sou feliz e quero transmitir felicidade para as pessoas e não guardo mágoa de ninguém”, garante Laila que por onde passa é sensação entre as pessoas.

No carnaval foi destaque na avenida e como sempre, chamou a atenção em todos as noites de animação. Nas festas organizadas na cidade, ela tem entrada VIP e não perde uma balada. “Eu entro de graça nas festas que tem por aqui e aproveito mesmo. Abafa que eu sou celebridade e a alegria do povo”, diz antes de soltar mais uma vez a palavra “abafa”, palavra que fala em quase todas as frases que pronuncia, sempre acompanhada de uma gargalhada peculiar que já se transformou em sua marca registrada. Ela é sempre espontânea e engraçada e não segura a língua na hora de falar sobre sua maior paixão: os homens! “Eu gosto de homem e sempre assumi isso desde criança. Minha família sabe, me apóia e me adora. Trabalho para pagar minhas contas, homem não falta, tenho amigos que patrocinam minhas roupas, então porque é que eu vou ficar me preocupando com o que dizem de mim? Eu sou feliz e repito que me amo muito”, afirma.

Quando questionada sobre amor, Laila confessa que uma vez já tentou se matar por causa de uma paixão da escola lá em Diamantina. Amarrou um pedaço de corda no chuveiro e tentou se enforcar. “Claro que não queria me matar de verdade, foi só para fazer ‘mídia’, chamar a atenção. Tomei um belo choque e tive que pagar o conserto da eletricidade da casa, pois deu curto circuito quando pulei com a corda no pescoço”, contou às gargalhadas. Hoje ela garante que jamais cometeria uma loucura dessas por qualquer homem. “Hoje eu aprendi muito e amadureci, nunca tiraria minha vida por causa de ‘bofe’ nenhum. Em primeiro lugar eu, sempre”.

 

TALENTO

Desde os dez anos trabalha fazendo faxina em casa de amigos, mas não é apenas limpeza de casa que ela faz muito bem. Corre a fama na cidade de suas mãos talentosas para a culinária e ela confirma que adora passar horas na cozinha. “Faço de tudo, bolo, pão de queijo, feijoada, salgadinhos. Tudo o que me pedirem eu faço. Já vendi muitas guloseimas que fazia em casa e saia vender nas ruas para poder pagar meu aluguel. Hoje meu forno não ajuda muito, mas quando me chamam para fazer eu adoro”. Laila tem o sonho de montar um dia o próprio negócio de caldos e buffet, além de sonhar também em voltar a dar aulas de dança para terceira idade, atividade que exerceu durante alguns anos em Pedreira. “Semana que vem tenho uma reunião com o prefeito de Jaguariúna e quero muito que tudo dê certo e eu volte a dar aulas de dança para terceira idade”, disse.

Mas Laila também tem um sonho um pouco mais complicado que uma carreira profissional. Ela quer fazer uma operação de transformação de sexo e contou que tem um empresário que quer patrocinar cirurgia em Jundiaí. “Não uso o ‘bilau’ mesmo, não presta para nada, então eu não vejo a hora de corta fora esse ‘nazarento’”, conta ela um pouco tímida, colocando as mãos sobre o rosto e soltando uma gargalhada.


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