Arquivo da categoria 'Crônicas'

30
Abr
09

Paradoxo do nosso tempo

Recebi esse texto por e-mail e achei muito bom! Vale a pena perder uns minutinhos, não apenas para ler, mas refletir sobre o assunto!

“Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos freqüentemente.
Nós bebemos demais, gastamos sem critérios.
Dirigimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais.
Perdemos tempo demais em relações virtuais,
e raramente estamos com Deus.
Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.
Aprendemos a sobreviver, mas não a viver;
adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos.
Fomos e voltamos à Lua,
mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho.
Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.

Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores.
Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo,
mas não nosso preconceito;
escrevemos mais, mas aprendemos menos;
planejamos mais, mas realizamos menos.
Aprendemos a nos apressar e não, a esperar.
Construímos mais computadores para armazenar mais informação,
produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos cada vez menos.

Estamos na era do ‘fast-food’ e da digestão lenta;
do homem grande, de caráter pequeno;
lucros acentuados e relações vazias.

Essa é a era de dois empregos, vários divórcios,
casas chiques e lares despedaçados.
Essa é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis,
das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas ‘mágicas’.
Um momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na dispensa.

Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama,
pois elas não estarão aqui para sempre.

Lembre-se dar um abraço carinhoso em seus pais,
num amigo, pois não lhe custa um centavo sequer.

Lembre-se de dizer ‘eu te amo’ às pessoas que ama,
mas, em primeiro lugar, se ame.
Um beijo e um abraço curam a dor quando vêm lá de dentro.
Por isso, valorize sua família, seus amores, seus amigos,
a pessoa que lhe ama, e, aquelas que estão sempre ao seu lado.”

02
Jan
09

Ano novo, vida nova…

girl_m 

“Chega de ficar quebrando a cara
com os velhos erros de sempre.
Quero cometer erros novos,
passar por apertos diferentes,
experimentar situações desconhecidas,
sair da rotina e do lugar comum.
Esse ano eu preciso crescer.
Chega de saber a saída
e ficar parado na porta,
ensaiando os passos
sem nunca entrar na estrada,
esperando que me venha
o que eu mais preciso encontrar.
Esse ano, se eu tiver que sofrer,
será por sofrimentos reais,
nunca mais por males imaginários,
preocupado com coisas
que jamais acontecerão.
Chega de planejar o futuro
e tropeçar no presente.
Chega de pensar demais e fazer de menos.
Chega de pensar de um jeito e fazer de outro.
Chega de corpo dizer sim e a cabeça não.
Chega desses intermináveis conflitos que
me fazem adiar para nunca a minha decisão.
Este ano eu vou viver”.

Vinícius de Moraes

14
Nov
08

A princesa e o sapo

mar_25_07

Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa,
independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e
pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as
conformidades ecológicas, se deparou com uma rã.
Então,a rã pulou para o seu colo e disse:
- Linda princesa, eu já fui um
príncipe muito bonito. Uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me
nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo
num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo.
A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar,
lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para
sempre…
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée,
acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a
princesa sorria e pensava: Nem Fudendo!


(Luís Fernando Veríssimo)

 

16
Jul
08

Férias que cansam…

Antes de chegar o mês de julho, tudo o que eu mais queria, era que chegasse o mês de julho.

Férias, descanso, cabeça-fria… Tinha planos de não me preocupar com nada, de não ver TV, de não acessar a internet, de não ter nem celular… Mas a gente faz um plano, a vida nos dá outro roteiro.

Mesmo antes de ter início minhas férias, eu já sentia que as coisas não seriam bem da forma como planejei. Pelo menos eu teria que manter meu celular. Acessar esporadicamente a internet. A Tv foi mesmo dispensável, o problema é que a gente acaba se sentindo um pouco fora de órbita, um peixe fora d’água, uma borboleta num aquário.

Já se passaram 15 dias e tudo o que eu tenho feito é me cansar, me estressar, me irritar e minha ansiedade essa semana já bateu recordes históricos. Estou uma pilha de nervos. Com vontade de sair gritando, falando verdades e inverdades a qualquer um, a quem quiser ouvir…

Tem horas que penso tanto, que fico enlatando idiotices na minha cabeça. Perco o sono, faço planos, escrevo estratégias, canto, relaxo, ouço música erudita para acalmar e nada… Quando abro os olhos, aquela imagem deturpada e grotesca, que nem saberia descrever, está ali na minha fuça, me encarando… rindo de mim maquiavélicamente. Aí eu choro… Me sinto pequena e frágil num mundo de titãs. Vou e volto com minha mente, passado, presente e futuro fundidos numa única fração de segundos confusos.

Tento afastar tudo de mim. Tento acreditar que é uma febre passageira. Uma alucinação imatura e infantil. Jogo as cartas na mesa e tento vencer, mas meu oponente não está nem aí em ganhar ou perder, não tem cartas limpas nem marcadas. Não quer se gabar de me vencer numa simples cartada. Quer me vencer na escuridão, onde meus olhos não enxergam nada. Quer ter vantagem na minha fraqueza e eu sei que a conhece bem…

Minha fraqueza são meus olhos… Não apenas os que podem ver a luz do dia, mas aqueles que conhecem o meu interior. Os olhos da minha alma que vêem bem o que me fere e o que me aflige. A partir de então, eu me recordo de uma frase que diz: “É quando estou fraco que sou forte”!

Abro os olhos e encaro o medo, a solidão, a incerteza… Não tenho forças o suficiente para afastar aqueles olhos frios de cima de mim, mas sei que com a coragem que encontro dentro de mim, aqueles olhos não farão nada além de me encarar.

Eu sei que sou forte. Eu me conheço o bastante para ter certeza de tudo o que eu posso ou não, e eu posso MUITO!

Não sou e nunca serei perfeita, mas na minha imperfeição, eu vou trilhando um caminho de conquistas, de ideais, de sonhos, porque não?! Vou levando um pouco de mim àqueles que precisam de um ombro, de uma companhia, de um simples sorriso…

Nesses dias pude perceber o quanto a gente faz falta na vida de muita gente e como tanta gente que faz parte de nossa história, nos faz falta no dia a dia rotineiro. São pessoas de nossa família, amigos que não vemos há tempos e indiferentes, acreditamos que não fazemos falta. Mas a falta não é a ausência física, a falta é incerteza de tudo. Incerteza de amizade, de carinho, de cumplicidade. E quando tudo volta a ser como antes, a recompensa é a certeza de que ainda existe um laço forte, que pode ser eterno… Mesmo quando temos ciência de que nada é para sempre e que o nos parece eterno hoje, pode acabar amanhã.

Minhas férias estão no fim. Aqui, mais dois dias cronometrados. Depois, não sei o que o futuro me reserva. Espero, torço, anseio para que venham coisas boas e se depender de mim, o amanhã estará apenas começando… num ritmo e numa coloração diferente! Já escolhi a cor e a trilha sonora. Se não combinar, eu corro para o estoque e faço uma nova paisagem, porque a minha vida, quem escreve sou eu!

17
Jun
08

Brasileiro…

 

- Brasileiro é um povo solidário. Mentira. Brasileiro é babaca.

Eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida;

Pagar 40% de sua renda em tributos e ainda dar esmola para pobre na rua ao invés de cobrar do governo uma solução para pobreza;

Aceitar que ONG’s de direitos humanos fiquem dando pitaco na forma como tratamos nossa criminalidade…

Não protestar cada vez que o governo compra colchões para presidiários que queimaram os deles de propósito, não é coisa de gente solidária.
É coisa de gente otária.

- Brasileiro é um povo alegre. Mentira. Brasileiro é bobalhão.

 

Fazer piadinha com as imundices que acompanhamos todo dia é o mesmo que tomar bofetada na cara e dar risada.

Depois de um massacre que durou quatro dias em São Paulo, ouvir o José Simão fazer piadinha a respeito e achar graça, é o mesmo que contar piada no enterro do pai.
Brasileiro tem um sério problema.
Quando surge um escândalo, ao invés de protestar e tomar providências como cidadão, ri feito bobo.

- Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira.

Brasileiro é vagabundo por excelência.
O brasileiro tenta se enganar, fingindo que os políticos que  ocupam cargos públicos no país, surgiram de Marte e pousaram em seus cargos, quando na verdade, são oriundos do povo.

O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado ao ver um deputado receber 20 mil por mês, para trabalhar 3 dias e coçar o saco o resto da semana, também sente inveja e sabe lá no fundo que se estivesse no lugar dele faria o mesmo.

Um povo que se conforma em receber uma esmola  do governo de 90 reais mensais para não fazer nada e não aproveita isso para alavancar sua vida (realidade da brutal maioria dos beneficiários do bolsa família) não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo.

- Brasileiro é um povo honesto. Mentira.

Já foi. Hoje é uma qualidade em baixa.
Se você oferecer 50 Euros a um policial europeu para ele não te autuar, provavelmente irá preso.
Não por medo de ser pego, mas porque ele sabe ser errado aceitar propinas.

O brasileiro, ao mesmo tempo em que fica indignado com o mensalão, pensa intimamente o que faria se arrumasse uma boquinha dessas, quando na realidade isso sequer deveria passar por sua cabeça.

- 90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira.

Já foi. Historicamente, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos retornando da Guerra do Paraguai ali se instalaram.
Naquela época quem morava lá era gente honesta, que não tinha outra alternativa e não concordava com o crime.
Hoje a realidade é diferente.
Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como ‘aviãozinho’ do tráfico para ganhar uma grana legal.
Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora, porque podem matar 2 ou 3 mas não milhares de pessoas.
Além disso, cooperariam com a polícia na identificação de criminosos, inibindo-os de montar suas bases de operação nas favelas.

 - O Brasil é um pais democrático. Mentira.

Num país democrático a vontade da maioria é Lei. 
A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas  sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros, foi executado friamente.

Num país onde todos têm direitos mas ninguém tem obrigações, não existe democracia e sim, anarquia.
Num país em que a maioria sucumbe bovinamente ante uma minoria barulhenta, não existe democracia, mas um simulacro hipócrita.
Se tirarmos o pano do politicamente correto, veremos que vivemos numa sociedade feudal: um rei que detém o poder central (presidente e suas MPs), seguido de duques, condes, arquiduques e senhores feudais (ministros, senadores, deputados, prefeitos, vereadores).
Todos sustentados pelo povo que paga tributos que têm como único fim, o pagamento dos privilégios do poder. E ainda somos obrigados a votar.


Democracia isso?  Pense !

O famoso jeitinho brasileiro.
Na minha opinião, um dos maiores responsáveis pelo caos que se tornou a política brasileira.
Brasileiro se acha malandro, muito esperto.
Faz um ‘gato’ puxando a TV a cabo do vizinho e acha que está botando pra quebrar.

No outro dia o caixa da padaria erra no troco e devolve 6 reais a mais, caramba, silenciosamente ele sai de lá com a felicidade de ter ganhado na loto… malandrões, esquecem que pagam a maior taxa de juros do planeta e o retorno é zero. Zero saúde, zero emprego, zero educação, mas e daí?
Afinal somos penta campeões do mundo né?
Grande coisa…

O Brasil é o país do futuro. Caramba, meu avô dizia isso em 1950. Muitas vezes cheguei a imaginar em como seria a indignação e revolta dos meus avôs se ainda estivessem vivos.
Dessa vergonha eles se safaram…
Brasil, o país do futuro!?
Hoje o futuro chegou e tivemos uma das piores taxas de crescimento do mundo.

Deus é brasileiro.
Puxa, essa eu não vou nem comentar…

O que me deixa mais triste e inconformado é ver todos os dias nos jornais a manchete da vitória do governo mais sujo já visto em toda a história brasileira. 

Para finalizar tiro minha conclusão:

O brasileiro merece! Como diz o ditado popular, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar. Se você não é como o exemplo de brasileiro citado nesse e-mail, meus sentimentos amigo, continue fazendo sua parte, e que um dia pessoas de bem assumam o controle do país novamente.
Aí sim, teremos todas as chances de ser a maior potência do planeta.
Afinal aqui não tem terremoto, tsunami nem furacão.
Temos petróleo, álcool, bio-diesel, e sem dúvida nenhuma o mais importante: Água doce!

Só falta boa vontade, será que é tão difícil assim?

Arnaldo Jabor 

 

26
Mai
08

Idiotice é vital para a felicidade

austin power

Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz! A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins.

No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.

Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto.

Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo,soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça?

hahahahahahahahaha!…

Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema?

É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí,o que elas farão se já não têm por que se desesperar?

Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer? Espero que não.

Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas… a realidade já é dura; piora se for densa.

Dura, densa, e bem ruim.

Brincar é legal. Entendeu?

Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço,não tomar chuva.

Pule corda!

Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte.

Ser adulto não é perder os prazeres da vida – e esse é o único “não” realmente aceitável.

Teste a teoria. Uma semaninha, para começar.

Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são:
passageiras. Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir…

Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!

Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora?

A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore,dance e viva intensamente antes que a cortina se feche!

Arnaldo Jabor

08
Mai
08

Os amáveis assaltantes…

assaltado

Gostaria de abrir esta coluna como se fosse janela e anunciar a povos e povas:

- Tudo bem. Tudo bem meeeesmo.

Mas para isto era necessário adotar o calendário maçom do Rito Escocês Antigo, que acrescenta quatro mil anos ao ano corrente da era cristã. Quer dizer: em 5980, quem ousaria dizer que tudo no Brasil não vai maravilhosamente bem? A inflação debelada, o País exportando produtos finíssimos para a velha Europa e a velha Ásia, os Estados Unidos de cartola na mão suplicando empréstimo ao BNDE, a União Soviética suplicando a nossa tecnologia, um excelentíssimo presidente da República escolhido pelo povo e proclamado, por esse mesmo povo, Sublime Cavaleiro Eleito, Príncipe do Sol, Venerável grão-Mestre Arquiteto e outros amavios que tais. Pudera: povo satisfeito, de barriga cheia e roupa limpa, preparando para toda sorte de trabalho e papando boa remuneração. Tudo isso por aí cultivado como deve e merece ser, isto é, sem agressão à natureza, alegria reinando, ordem justa e aceita geralmente, todos os poderes funcionando em benefício da coletividade e do indivíduo, salvo o Poder Maligno, extinto para todo o sempre…. Tudo bem! neste Elul, que é como os velhos escoceses do rito maçônico designavam o mês de agosto, que poderíamos chamar mês de gosto, se de gosto não fosse o ano inteiro, a vida inteira, nesse Brasil do futuro, que um dia chegará.

Por enquanto, neste agosto de 1980, meu “tudo bem” é muito relativo. João Brandão, que acabou de pronunciar a frase a meu lado, acrescentou:

- Até este momento, e são três horas da tarde, ainda não fui assaltado, compre o Pasquim na banca da esquina e a banca não fora destruída por explosão, de sorte que: tudo bem.

Recomendei-lhe que tivesse cuidado e não falasse tão alto, pois três horas da tarde não são o fecho do dia, e muitos acontecimentos irregulares se praticam depois dessa hora. Há mesmo horários especiais para certas atividades, que se situam na faixa vespertina ou noturna.

Não o aconselhei a ir direto para casa, a título de medida de segurança, porque a casa nem sempre deve ser considerada asilo inviolável do cidadão. Ainda na semana passada, o meu amigo Procópio ia entrar em seu apartamento e teve dificuldade de girar a chave na fechadura. Tocou a campainha, e uma voz lá dentro, voz desconhecida, perguntou:

- Quem é?

- O dono da casa.

- Um momento, por gentileza.

Passados três momentos, e não um, a porta abriu-se e Procópio viu-se diante de um desconhecido, que o interrogou:

- Então o senhor é mesmo o dono da casa?

- Sim senhor.

- Pois entre e não repare na desarrumação. Estamos fazendo uma limpeza. Depois botamos tudo no lugar.

- Tudo  mesmo?

- Quer dizer: os móveis, os objetos de grande porte. Vamos levar só o que nos interessa. Esteja à vontade.

Eram três, indicaram-lhe uma poltrona e pareciam dispostos a conversar para passar o tempo.

- Nada mau o seu uísque, doutor. Tome um copo, sirva-se.

Procópio não viu nenhuma arma apontada para ele, nenhum ar de ameaça. E queriam conversar. Sobre All That Jazz (“Já viu, doutor? vale a pena”), as próximas eleições americanas, mostrando-se muito exigentes quanto a Carter e a Reagan, (“nenhum dos dois merece o lugar”), a minissaia, que ameaça voltar quando o melhor seria o vestido bem longo (“para fazer a gente sentir saudades do corpo feminino”), e outros e outros assuntos. Pareciam dispostos a demorar, ou – quem sabe? – a morar junto com o dono da casa.

Às oito horas um consultou o relógio:

- Vamos embora. Deixemos este cavalheiro descansar, enquanto nós saímos para outro serviço.

Despediram-se cortesmente, e um observou:

- Viu que não trouxemos armas? Como na Inglaterra.

O segundo:

- Prazer em conhecê-lo. O senhor é realmente um homem fino.

Procópio ia agradecer, mas parou o tempo. Daí a pouco seria capaz de dizer: “Encantado. Voltem um dia desses”.

Saíram com o pacote bem-feito e sumiram na noite.

João Brandão ouviu a história e comentou:

- Pois é. Tudo bem. Quando o assaltante é educado, nem se pode dizer que é assaltante. É visita.

 

Carlos Drummond de Andrade

08
Mai
08

No tempo da minha avó

 Minha mãe sempre diz frases do tipo moralista e depois acrescenta a autoria ”como dizia minha mãe”. Na última vez que ouvi isso, fiquei imaginando se daqui alguns anos, se eu tiver filhos, serei capaz de me lembrar desses ditos populares, para numa ocasião oportuna, lançar uma frase do tipo: “Deus ajuda quem cedo madruga” ou ainda ”antes de casar sara”, e para mim a melhor, “o que não mata, engorda”, e acrescentar a autoria “como dizia minha mãe”, ou melhor, “como minha mãe dizia, que dizia sua mãe”. Em ultimo caso, poderei dizer “como dizia a minha avó, segundo minha mãe”, porque não tive oportunidade de ouvir diretamente dela.

            Uma coisa que me intriga, é pensar na força que os ditos populares tinham na época da minha avó. Esses ditados eram levados muito a sério. Dizê-los impunha uma postura de quem havia herdado uma sabedoria ancestral e incontestável. Nos dias de hoje, não é raro ouvirmos algumas frases mais conhecidas, mas afirmar que o significado delas esteja correto é meio duvidoso. É quase que um vício deixar escapar um ‘ditadinho’ para tentar algum efeito. Você está numa conversa empolgada com uma amiga sobre o namorado bonitão da outra amiga que a traiu e deixou todo mundo espantado, devido sua postura de rapaz sério. De repente o assunto se esgota e vocês não têm mais o que dizer… É fácil soltar uma frase do tipo: É amiga, “nem tudo que reluz é ouro”!

            Lembro-me até hoje do dia em que terminei meu namoro. Foi há três anos. Passei dias amuada, invejando as belas e amadas mocinhas dos filmes da Sessão da Tarde e chorando pelos cantos. Minha mãe tentando me animar. Acho que foi o período em que me apaixonei pelos ditados (minha mãe sempre soube usá-los na hora certa). Se não comia, ouvia: “saco vazio não pára em pé” e me obrigava a engolir um ‘Miojo’ aguado. Se chorava e lamentava da minha infelicidade momentânea, ela me lembrava que “não há mal que perdure, nem dor que não se cure”, e claro me contava histórias e mais histórias de casos parecidos e que terminavam sempre com um final feliz. Nas horas do conselho materno, (sabedoria que não deve ser ignorada), sempre gostei de ouvir que “Deus escreve certo por linhas tortas”. E claro que nos momentos de raiva, em que me reservava para maldizer o inútil do meu ex, eu me encantei por uma frase em especial: “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Não que eu desejasse que ele se desse mal, mas está aí um ditado que não me deixa mentir, “aqui se faz, aqui se paga”. Mas sei lá, acho que nesse caso, o ditado furou. Ele está muito bem, obrigada. Hoje nem sei por que me dei ao trabalho de guardar “luto” por tanto tempo. Ele era do tipo “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”, como dizia minha mãe, segundo sua mãe costumava dizer.

Mas o importante é saber que no tempo da minha avó, os ditados tinham uma força ética e moral inviolável. Hoje nós conhecemos, respeitamos e até nos arriscamos a soltar algumas frases mais conhecidas. O problema é que, nos esquecemos fácil de seus significados, e dizer por dizer pode sair feio, por isso, costumo afirmar que “em boca fechada não entra mosca” e “falar é prata, calar é ouro”.

  

Mauren Ribeiro

 

25
Abr
08

As mil faces dos chatos fundamentais

Chato

 

O chato é antes de tudo um forte” foi o título de um artigo meu, que abriu polêmica entre chatos e não-chatos. Todos têm medo de sê-lo – inclusive eu. A descoberta básica de minhas pesquisas é que o chato se sabe como tal, mas é movido pela esperança obstinada de um dia se livrar dessa pecha e ser aceito. Nesta utopia ele se gasta e chateia todo o mundo.

Continuo a achar que o chato crônico é, antes de tudo, um carente. Ele precisa de você para viver: sozinho, ele definha como um vampiro anêmico. Há muitos tipos de chatos, sendo o mais famoso, o fundador da estirpe, o célebre chato-de-galochas, cujo nome provém do sujeito que calçava as galochas e saía de casa com chuva torrencial para atormentar alguém em domicílio. Hoje seria o chato on delivery .

Chatos, os há em abundância, como escreveria um chato. Há o sádico, o falador, o masoquista, o chato do elevador, do aeroporto (no aeroporto eles florescem… Naqueles halls que te aprisionam na espera do avião é onde eles te supõem mais indefeso e tolerante. A galeria de chatos está em permanente renovação, com novos tipos que a História vai engendrando. Por exemplo, com o trágico advento da máquina fotográfica dentro do celular (inovação que me soa incestuosa, promíscua como… sei lá… um barbeador elétrico com rádio), eclodiu a multidão dos fotochatos . Por causa desse progresso da Humanidade, sou encurralado nos becos e salões: “Oi… posso tirar uma foto com você?”. Pronto. Lá estou eu abraçado com um bigodudo, sob os olhos debochados dos outros. Claro que a câmera nunca funciona de primeira, até que vem o flash, e o cara some num segundo, com um rápido “obrigado”, como quem rouba minha alma. O chato da foto sempre me deixa carente.

Não quero bancar o famosinho (juro!), mas aparecer peruando na TV dá nisso. O sujeito pensa que é meu íntimo, pois, enquanto ele transa com a mulher de noite, estou olhando da tela, falando do Zé Dirceu.

Outro dia, sofri um assédio inédito: o chato em dupla. Nunca tinha visto. Eles vêm no plural, talvez por causa da explosão demográfica. Eu estava no aeroporto (sempre esse lugar fatal), às oito da manhã, quando eles vieram. Melhor dizendo, foi um de cada vez. Veio um e começou a me inquirir gravemente sobre o Lula, se ele sabia de alguma coisa, se eu sabia se ele sabia… Suando frio, comecei a responder com a boca pastosa, quando surgiu um outro, desconhecido do primeiro. Eis que o novo chato interrompeu o titular da posição com novas perguntas ansiosas, se o PMDB teria candidato e se o Rigotto era melhor que o Garotinho. E aí, deu-se o conflito: os dois começaram a se digladiar na minha frente pelo “direito de pernada”, o direito hierárquico de me encher o saco. “Eu cheguei primeiro, tenho prioridade, sim, não!”. Parei de sofrer e fiquei maravilhado com a rica e bela biodiversidade da espécie .

Ultimamente, cataloguei também o chato autocrítico. Este chega com um sorriso constrangido e confessa: “Eu sei que sou chato… ah ah… mas… será que a gripe aviária vai chegar aqui?”. Imagino-o morrendo de febre, infectado pelo próprio periquito.
Tive também uma experiência dolorosa com um novo tipo: o chato desconcertante, intempestivo.

Andava eu pelo calçadão de Ipanema, quando veio um cara na minha direção sorrindo muito, simpático. Preparei um agradecimento gentil, esperando um elogio, quando ele disparou: “Você precisa parar de dizer besteira na TV, hein!”. E sumiu, no cooper. Esses traumas ao menos nos edificam.

Há também o chato altissonante. Ele me agarra no bar lotado, na fila do cinema e berra: “Cara, eu te adoro! Sou teu fã!”. E bate violentamente nas minha costas, pois em geral são atléticos e em suas palmadelas calorosas há um laivo de punição e vingança. Também há o chato altissonante do contra. Ele pode te esculachar também no meio do bar, entre os sorrisos malévolos dos circunstantes: “Você foi muito injusto com o Sarney e o Garotinho naquele dia…!”. Aliás, os dois tipos de chato podem caber em um só sujeito, o chamado “chato dois-em-um”.
Tenho pensado, com o passar da vida, que há um tipo de chato que nos passa despercebido: o chato que era chato e não sabíamos. Podemos freqüentar o cara anos, e um dia, já velho, descobrir: “Fulano era chato….”. É o chato a posteriori . São tantos… Há o chato arquivista também. O cara é em geral cultíssimo, sério, dedicado e com boas intenções, mas pode te alugar horas porque o texto que você citou de Max Weber não era no livro tal, que o contexto era outro, que a tradução certa de “entzauberung” não era aquela…

Aliás, é espantoso o número de especialistas em bobagens nesse país. Sobre cinema então, conheço gente que fala do maquiador de “My fair lady” ou da vida sexual de Fritz Lang por horas… A propósito, há um chato infalível, o chato cinéfilo mal orientado, que só gosta de filme ruim. Eu posso xingar até Alá que terei menos inimigos, mas não posso criticar um filme de seu coração. Uma vez, quando narrei o Oscar (oh… infausto momento…) ousei dizer que achava o Robin Williams um canastrão. Pra quê? Choveram tijolos de e-mails na Globo, exigindo minha cabeça ao Dr. Roberto.

Há chatos do bem e do mal, mas todos se encontram no infinito.

O chato gosta de ver teu sofrimento, por isso, não adiantam respostas malcriadas, resmungos pálidos. Ele gruda mais. Nem adianta fingir simpatia, na esperança de que ele parta. Não há solução, se bem que a reza ajuda. O chato está falando, e você ali lembrando do “Credo”. Te acalma como um mantra, e Deus pode vir em tua ajuda.

Outra técnica que funciona razoavelmente é chatear o chato. Seja o chato do chato. Ele pergunta: “Por que você não volta a fazer cinema?”. E você retruca: “O que você está achando do PMDB?”.
O Tom Jobim, uma das maiores autoridades em chatos de todos os tempos, me ensinou um truque que proclamava infalível: “Use óculos escuros. O chato fica desorientado, pois ele adora ver o próprio rosto refletido em teus olhos desesperados”. Grande Tom – que saudade…

por Arnaldo Jabor, indescritível!




 

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