Arquivo da categoria 'Jornalismo'

25
Ago
09

Sem pudor e sem papas na língua

Existem diversos ditados populares que nos alertam para o risco que corremos ao julgar uma pessoa pela aparência. Minha mãe mesmo tem o hábito de concluir conversas com jargões conhecidos para enfatizar o assunto e sempre finaliza com um sonoro ‘quem vê cara não vê coração’, ou qualquer outro ditado como frase de efeito para corroborar o sermão. E eu como humana e cheia de defeitos, assim como você, já cometi o erro de muitas vezes olhar, rotular e depois quebrar a cara. As pessoas são diferentes e o que muitas vezes enxergamos com os olhos, não corresponde a nada do que aquela pessoa realmente é e as aparências continuam a nos enganar. Essa semana, quando conheci a Laila, ela chegou no jornal agitada e um pouco tímida em seu vestidinho lilás, mas aos poucos conseguiu reverter a timidez e se transformou na personagem que é conhecida pela falta de pudor e sem nenhuma vergonha. Uma pessoa que se revelou em poucos minutos e conseguiu mostrar que muito mais que um rótulo, o que importa são os valores que carrega e os sonhos que ainda busca alcançar. Uma mulher no corpo de um homem, uma mulher interior que se conhece, que se ama, que sabe o que quer e não se deixa vencer pelos obstáculos que encontra. “Eu sempre batalhei na minha vida. Eu adoro homem e acho que foi a melhor coisa que Deus criou, mas nunca sai com nenhum em troca de dinheiro, em troca de algum benefício, não misturo as coisas assim, abafa”, conta aos risos e sempre gesticulando sem parar.

Quando nasceu no dia 13 de setembro de 1980 em Diamantina, Minas Gerais, Laila foi registrada como Ricardo Alexandre e mantêm até hoje os documentos originais. Criada numa família humilde com mais treze irmãos, já aos dez anos de idade começou a se interessar por meninos e na escola trocava o lanche por um beijo de algum colega. Aos treze já morava sozinha e se sustentava com a ajuda de uma senhora que pagava seu aluguel em troca de faxina. Quando decidiu dar um outro rumo a sua vida, pegou carona com um caminhoneiro e chegou ao Rio de Janeiro onde trabalhou como cozinheira por três meses antes de vir para Pedreira com o irmão da patroa que trabalhava numa fazenda na região. Em pouco tempo seu talento para fazer amigos e sua personalidade extrovertida a transformou numa personagem curiosa e engraçada, hoje Laila conhecida como uma celebridade local dispara sem vergonha e sem papas na língua aquilo que lhe dá na cabeça. “Não tenho vergonha de nada, eu sou feliz, eu me amo! Vergonha é roubar e não poder carregar”, afirma. E sem pudor nenhum, revela que ‘bicha’ também tem sentimento.

 Laila

PRECONCEITO

Muita gente quando a encontra na rua pode até torcer o nariz, mas ela garante que nunca sofreu nenhum tipo de preconceito grave, só se lembra de uma vez, logo que chegou a Pedreira, quando três garotos bêbados abusaram dela enquanto estava bêbada. “Foi uma coisa impensada da parte deles e eu fiz até um BO (boletim de ocorrência), mas depois retirei, porque eram meninos de família e eu não queria prejudicar ninguém. Meu lema é a paz, eu sou feliz e quero transmitir felicidade para as pessoas e não guardo mágoa de ninguém”, garante Laila que por onde passa é sensação entre as pessoas.

No carnaval foi destaque na avenida e como sempre, chamou a atenção em todos as noites de animação. Nas festas organizadas na cidade, ela tem entrada VIP e não perde uma balada. “Eu entro de graça nas festas que tem por aqui e aproveito mesmo. Abafa que eu sou celebridade e a alegria do povo”, diz antes de soltar mais uma vez a palavra “abafa”, palavra que fala em quase todas as frases que pronuncia, sempre acompanhada de uma gargalhada peculiar que já se transformou em sua marca registrada. Ela é sempre espontânea e engraçada e não segura a língua na hora de falar sobre sua maior paixão: os homens! “Eu gosto de homem e sempre assumi isso desde criança. Minha família sabe, me apóia e me adora. Trabalho para pagar minhas contas, homem não falta, tenho amigos que patrocinam minhas roupas, então porque é que eu vou ficar me preocupando com o que dizem de mim? Eu sou feliz e repito que me amo muito”, afirma.

Quando questionada sobre amor, Laila confessa que uma vez já tentou se matar por causa de uma paixão da escola lá em Diamantina. Amarrou um pedaço de corda no chuveiro e tentou se enforcar. “Claro que não queria me matar de verdade, foi só para fazer ‘mídia’, chamar a atenção. Tomei um belo choque e tive que pagar o conserto da eletricidade da casa, pois deu curto circuito quando pulei com a corda no pescoço”, contou às gargalhadas. Hoje ela garante que jamais cometeria uma loucura dessas por qualquer homem. “Hoje eu aprendi muito e amadureci, nunca tiraria minha vida por causa de ‘bofe’ nenhum. Em primeiro lugar eu, sempre”.

 

TALENTO

Desde os dez anos trabalha fazendo faxina em casa de amigos, mas não é apenas limpeza de casa que ela faz muito bem. Corre a fama na cidade de suas mãos talentosas para a culinária e ela confirma que adora passar horas na cozinha. “Faço de tudo, bolo, pão de queijo, feijoada, salgadinhos. Tudo o que me pedirem eu faço. Já vendi muitas guloseimas que fazia em casa e saia vender nas ruas para poder pagar meu aluguel. Hoje meu forno não ajuda muito, mas quando me chamam para fazer eu adoro”. Laila tem o sonho de montar um dia o próprio negócio de caldos e buffet, além de sonhar também em voltar a dar aulas de dança para terceira idade, atividade que exerceu durante alguns anos em Pedreira. “Semana que vem tenho uma reunião com o prefeito de Jaguariúna e quero muito que tudo dê certo e eu volte a dar aulas de dança para terceira idade”, disse.

Mas Laila também tem um sonho um pouco mais complicado que uma carreira profissional. Ela quer fazer uma operação de transformação de sexo e contou que tem um empresário que quer patrocinar cirurgia em Jundiaí. “Não uso o ‘bilau’ mesmo, não presta para nada, então eu não vejo a hora de corta fora esse ‘nazarento’”, conta ela um pouco tímida, colocando as mãos sobre o rosto e soltando uma gargalhada.

19
Jun
09

Ser normal é ser diferente

Uma história incomum, um final feliz. Casal deficiente rompe barreira da inclusão social e dá primeiros passos para acabar de vez com o preconceito

 Maria Gabriela Andrade Demate tem 28 anos. Já teve vários namorados, mas o eleito para compartilhar a vida foi Fábio. Com ele, teve uma filha em março do ano passado e quando Valentina completou um ano, há três meses, os pais subiram ao altar para oficializar a união de três anos. Era um sonho para Gabriela que não via a hora de usar o vestido branco e jogar o buquê para as amigas solteironas.

Se adaptando à vida de casada, Gabriela divide o tempo entre cuidar do marido, estudar e ajudar a mãe Laurinda, a cuidar de Valentina. De manhã cuida da casa, faz almoço, sempre com a supervisão do marido exigente para comida, meio dia leva a filha na escola e passa resto do dia passeando ou em casa. No final da tarde pega Valentina e deixá-a com a avó para ir à escola onde cursa o ensino fundamental.

Gabriela tem síndrome de Down e uma rotina normal, como qualquer outra pessoa.

Os mais longos dias da minha vida

Quando soube que sua filha, com 27 anos na época estava grávida, Laurinda Andrade não conseguiu dormir por algumas noites. Nunca tinha ouvido falar de uma mulher Síndrome de Down que tivesse engravidado e o fato de não ter feito um acompanhamento pré-natal, triplicaram as preocupações. “Foram os mais longos dias da minha vida”, diz Laurinda. Após alguns meses de exames e visitas a diversos médicos especialistas, Gabriela deu a luz a Valentina no dia 19 de março de 2008, por volta das 19h. O parto foi cesárea e a bebê não herdou a síndrome da mãe, nem as características mentais do pai, uma vez que a deficiência dele não teria origem genética. “A probabilidade de uma mulher Down gerar um filho com a síndrome é de 50%, mas nesse caso fomos muito abençoados e Valentina nasceu sem nenhuma deficiência física ou mental”, conta a avó Laurinda.

A história correu o Brasil e ganhou status nacional. Gabriela é um caso raro, faz parte de um pequeno grupo de aproximadamente 50 mulheres com síndrome de Down que tiveram filhos, a maioria vítima de abuso sexual. “A Gabriela começou a namorar o Fábio e não teve quem os segurasse. Foi um relacionamento que aconteceu muito rápido e quando percebemos, ela já estava praticamente morando com ele na casa da mãe”, explica Laurinda. Fábio Marchete de Moraes tem a mesma idade que Gabriela e é deficiente intelectual desde os primeiros meses de vida. O casal se conheceu na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Socorro, cidade do interior de São Paulo, a 102 quilômetros de Campinas. “Logo que começamos a namorar eu tive que brigar com um ex-namorado dela que não saia de cima. Aí ela escolheu ficar comigo”, conta Fábio todo orgulhoso ao declarar que teve que lutar com unhas e dentes pelo amor da atual esposa.

Um final de contos de fada

Gabriela tinha o sonho de oficializar a união em um casamento tradicional, com direito a vestido de noiva, buquê, marcha nupcial e festa. E foi exatamente no dia que a filha completou um ano que o sonho foi concretizado na Igreja Matriz de Socorro. Gabriela, como qualquer noiva, passou o dia nervosa. Fábio um pouco mais tranquilo, subiu ao altar e esperou paciente o atraso de dez minutos da noiva. Depois da cerimônia religiosa que teve mais de cem convidados, os jovens recém-casados receberam os amigos numa festa de arromba que celebrava o casamento e o primeiro aniversário da filha.

“Foi um dia inesquecível, saiu tudo perfeito, do jeito que eu queria”, relembra Gabriela. “Passei o dia no salão de beleza para me arrumar e a noite estava no meu casamento com todos os meus amigos por perto. A Valentina levou as alianças no colo da minha mãe e foi muito bonito”. A oficialização do casamento era um sonho de Gabriela que costumava passar as tardes de sábado na Praça Matriz observando as noivas que saiam da igreja. Na tarde do dia 19 de março de 2009, o casal deu um passo essencial para concluir uma história de amor. “Foi um novo começo para os dois que têm agora a missão de concluir um final feliz para uma história que tinha tudo para não dar certo, mas provou que o amor não vê barreiras para acontecer, ele simplesmente acontece”, disse a mãe da noiva.

Casamento

19
Jun
09

Um salto na escuridão

Perfil jornalístico sobre uma esquizofrênica

Há quatro anos, Edna se levantava pela manhã, bem cedinho, e preparava o café para toda família antes de sair para o trabalho. Ajudava o filho adolescente a se preparar, pois sempre se levantava atrasado para a aula, dava os remédios à mãe de 73 anos, esperava o marido esquentar o carro a álcool na garagem e depois saiam todos juntos. A mãe ficava na casa de outra filha, o filho na E.E. Prof. Celso Henrique Tozzi e ela e o marido iam para o trabalho. Exerciam na Flextronics a mesma função: técnicos de qualidade, com a tarefa de testar laptops e atestar o bom funcionamento dos aparelhos.

Num dia normal, como outro qualquer, Edna chegou do trabalho por volta das 19h. Preparou o jantar e lavou a louça com ajuda do marido. Depois de mais um episódio da trama amorosa entre Sol e Tião da novela América, se rendeu ao cansaço e foi dormir.

Quando fala desse dia, Edna pode contar detalhes pormenores sobre o que fez, mas não consegue encontrar uma fagulha de lembrança que lhe dê indícios sobre o que estava para sofrer. Foi apenas mais um dia comum, uma rotina seguida sem alterações, sem contratempos. E foi pela manhã que começou o pesadelo. Ao abrir os olhos não reconheceu o quarto e nem sabia quem era. Fechou os olhos apertados com as mãos no rosto e permaneceu imóvel por quase cinco minutos. Na mente, uma sensação de desordem, como se nada estivesse em seu lugar. Quando abriu os olhos pela segunda vez sabia que estava em casa, mas sentiu que alguma coisa não estava se encaixando. Tinha alguma coisa errada. Antes de ir para a cozinha preparar o café, foi para o escritório, ligou o computador e entrou em pânico. Não sabia nem ao menos iniciar o Windows, uma tarefa costumeira para quem trabalhava todos os dias com computadores. Voltou para o quarto onde o marido ainda dormia e o chacoalhou na cama.

- Não vou trabalhar hoje.

- Por quê?

- Não estou me sentindo bem.

- Está com alguma dor?

- Não.

- Então o que é?

- Não sei. Tem alguma coisa errada comigo.

Levantou-se, ainda vestida com a camisola de dormir, e foi para a cozinha preparar o café, mas ao invés disso, sentou à mesa e chorou.

 EQUOTERAPIA

Montada na égua branca de crina longa, Edna se sente como uma criança nos braços da mãe, segura. É como se o animal pudesse protegê-la de todas as vozes que a perturbam, de todos os fantasmas que a assombram. Uma vez por semana, durante alguns breves minutos, não existe mais nada no mundo a não ser uma égua branca e sua montaria. E nesses momentos de tranqüilidade, tão preciosos, são invejados por todos os outros momentos de turbulência que presencia. E para fugir de tanta confusão, Edna escreve.

E com palavras que não saem de sua boca e sim da ponta de seus dedos, consegue traduzir conflitos internos que não têm explicação, nem para ela. Mas as palavras elucidam o que não a mente não consegue compreender e no papel branco, as letras escuras ordenadas e alinhadas parecem ter sentido.

Numa tarde quente e nublada, clima pré-chuva de verão, o haras está atipicamente silencioso. Nininha está com outro paciente. Edna tem que esperar sua vez. Impaciente pede um papel e uma caneta à orientadora e senta-se sob um velho ipê que sombreia o pátio de espera. Ali, recostada num ramo de raiz, ela começa a escrever, quase sem parar, quase sem pensar. Deixa as mãos guiaram o rumo da caneta sobre a folha amassada de um caderno sujo, com impressão de que foi jogado no lixo e reutilizado.

Edna não pensa em conexão, nem em concordâncias gramaticais, verbais ou o que quer que se já. Ela quer explodir o que se acumula em seu peito, o que toma espaço em sua mente e para isso, deixa a razão de lado. Naquele momento, Edna é um sentimento que anseia pela liberdade, assim como uma terra árida, castigada pela seca, anseia a temporada de chuvas. E é assim, do nada, sem pedir licença para chegar, que a inspiração de Edna aflora de suas mãos.

 

À Nininha

Branca, forte e imponente.

A égua que monto, gosto do seu jeitinho.

Abraçada ao seu pescoço

Engole meus medos

Trouxe-me a esperança de dias melhores

Dias, horas, minutos, sem os terríveis delírios.

Traz-me a doce ilusão de ser normal e não especial

Seu caminhar leve e tranquilo me embala e me suporta

Mostrou que meu amor se expande

Traz-me histórias para contar e compartilhar

De como podemos ser felizes, com limitações

Sinto sua falta nos outros dias da semana

Gostaria de vê-la sempre, para que meus dias fossem mais leves.

Será que você é mesmo irracional?

Então porque esse amor incondicional?

Você me traz felicidade com sua delicadeza

Gostaria que coubesse na minha casa pequenina

Para que eu pudesse acariciar todos os momentos da minha vida.

Você me traz o sentido da esperança

Com sua crina leve que balança.

Eu que pensava que só amava os cachorros e gatos, me descubro,

Apaixonada pelos cavalos, por sua existência minha doce Nina.

 DIAGNÓSTICO

Edna foi para o pronto-socorro em estado de surto. A única coisa que se lembra é de ter sentado à mesa para descansar, mas quando o marido entrou na cozinha, encontrou a mulher acuada num dos cantos do cômodo se defendendo com as mãos e pedindo para se afastar. O pedido não era para ele, era para alguma coisa que somente Edna podia ver, e pela direção do olhar da mulher, era alguma coisa baixa.

- Edna?

- Sai daqui.

- Não tem nada aqui, Edna.

- Ele quer me morder, chama alguém para ajudar.

- Não tem nada aqui. Só nós dois.

Edna de repente olhou para cima. Os olhos assustados e nervosos pareciam aliviados por terem notado a presença do marido na cozinha. Contornou a mesa que a separava do marido e andou devagar, sempre observando com o canto dos olhos, o animal que a estava ameaçando.

- Como esse cachorro entrou aqui?

- Não tem cachorro nenhum aqui Edna.

- Ele não pára de rosnar, deve ser bravo.

Assim que a alcançou, o marido a abraçou e disse que ela estava protegida. Levou-a para o quarto ajudou-a a trocar de roupa. Acordou a sogra que ainda dormia e avisou que Edna não estava bem e que ia levá-la para o hospital e sem alongar a conversa saiu com mulher, que parecia pisar em ovos ao caminhar com muito cuidado, desviando de coisas invisíveis.

No pronto-socorro, o médico que a examinou disse que ela estava com depressão e receitou Rivotril, um tranqüilizante de alta potência. Depois de medicada, o marido a levou para casa e a deixou sob os cuidados da sogra para ir trabalhar. Mesmo preocupado, não podia perder um dia de serviço e precisava avisar na empresa que Edna não estava bem.

A mãe estranhou quando Edna dormiu o resto do dia e continuou dormindo por toda a noite. De manhã quando se levantou, a filha ainda dormia. Perguntou para o genro o que estava acontecendo e ao ouvir a explicação teve medo.

- A Edna já teve depressão. Isso não é depressão.

- O médico disse que é. Vamos esperar que ela acorde para ver como vai reagir.

E foi no final da tarde que Edna despertou e ao abrir os olhos, avistou um homem estranho no quarto. Agachado ao lado da cama, o homem lhe dirigiu um olhar de repreensão. Com uma voz firme e rouca gritou com ela.

- Você é burra, mulher.

Sem entender aquilo, perguntou quem ele era, mas ele parecia saber apenas uma frase.

- Você é burra, mulher.

E repetia sem parar. Gritando, cochichando, sussurrando. De repente parou. Se levantou e saiu do quarto. Edna chamou o marido, mas quem entrou no quarto foi a mãe, o marido estava trabalhando.

- Quem era esse homem que estava aqui?

- Que homem filha, não tinha ninguém aqui.

- Ele estava aqui no quarto me xingando.

- Não, não. Estamos só nós duas em casa.

Edna começou a gritar e a chorar e disse que estava louca, que tinha visto um homem, que ele tinha gritado com ela. A mãe sem saber o que fazer, ligou para o genro na empresa e contou o que estava acontecendo. Em menos de 20 minutos, Edna era novamente levada para o pronto-socorro e diagnosticada com surto psicótico.

 INTERNAÇÃO

Naquela tarde os médicos acharam melhor que Edna não voltasse para casa e sugeriram que passasse a noite no hospital. À base de outra dose de tranquilizante, passou mais de 24 anos dormindo e quando acordou estava bem. Não tinha mais nenhum fantasma a aterrorizando quando abriu os olhos e por alguns segundos ficou aliviada. Tomou café da manhã e se levantou para andar um pouco pelo quarto. E foi quando encostou os pés no chão que conseguiu ver. O quarto todo estava tomado por cachorros. Edna teve que ir pulando e se desviando dos animais para chegar à porta e quando alcançou o corredor, mais cachorros. Começou a chorar e se encolheu no chão. Sentiu-se perdida. Estava louca.

Naquela tarde foi encaminhada para um hospital psiquiátrico em Itapira. Como não tinha plano de saúde, foi internada pelo SUS e teve que dividir o quarto com outra mulher. Assim que chegou ao hospital teve um surto e foi levada para a sala de choque. Não se lembra quanto tempo dormiu depois, mas acordou com o corpo dolorido. Parecia que tinha levado uma surra. Sentou-se na cama e sua companheira de quarto a encarava. O homem estranho estava agachado ao seu lado e sorria maleficamente, sussurrando a mesma frase.

- Você é burra mulher.

Ela o ignorou e se levantou. Sem olhar para sua companheira que ainda a encarava, saiu do quarto. Assim que pôs os pés para fora, o silêncio foi rompido por um tornado irreconhecível de vozes desconexas se confundiam entre gritos e murmúrios. Não conseguiu mais distinguir o que era real e o que não era. À sua frente, dezenas de borboletas coloridas giravam sem controle ao redor de algum foco invisível. Atrapalhavam seu caminhar. Com as mãos, afastava os insetos teimavam em bater em eu rosto.

Foi para fora do prédio. Um enorme jardim se estendia ao longo do terreno. Alguns bancos de madeira pintados com tinta branca estavam vazios. À sua direita uma piscina olímpica de águas azuis refletia o sol em seu rosto. Edna caminhou até ela. Não teve vergonha de caminhar entre outros pacientes, vestida apenas com o avental verde da instituição. As vozes pediam para que ela continuasse. O homem estranho que agora caminhava ao seu lado repetia a mesma frase incessantemente.

- Você é louca, mulher.

- Você é louca, mulher.

- Você é louca, mulher.

- Você é louca, mulher.

Naquele momento, confusa com o que acontecia à sua volta, Edna não sabia distinguir o que era e o que não era real. Contornou a piscina e chegou a lateral que tinha escada. Passo a passo foi descendo e deixando a água abraçar seu corpo. Quando não conseguiu alcançar o ar para alimentar seu pulmão, sentiu o silêncio dominar sua mente. Em frações de segundos, as borboletas se dissolveram, o homem estranho desapareceu, as vozes calaram-se. Edna sentiu livre. Estava pronta para abandonar aquela vida que aprisionara-a numa realidade que não conhecia. Uma realidade ilusória. Edna havia se cansado daquela vida. Estava pronta para desistir.

Segundos depois estava sendo carregada por mãos apressadas que não conhecia. Reconheceu a sala branca de luz forte que havia estado antes, sabia que ia passar por mais uma sessão de choque. Não viu mais nada.

 ACEITAÇÃO

Edna Doiche é esquizofrênica. Hoje não tem dificuldade para falar sobre isso, mas ainda sente vergonha em declarar que ouve vozes, que vê coisas que não existem. Fala de si mesma como louca. Sabe que nunca voltará a ser normal de novo.

- Já fui atrás do deus do Espiritismo, das Testemunhas de Jeová, da Universal do Reino de Deus, da Igreja Católica. Esgotei minha fé em deuses que não me curaram. Hoje minha fé limita-se a aceitar que os medicamentos que tomo podem me ajudar a ser uma pessoa normal, mas sei que a esquizofrenia é uma doença que levarei para o túmulo. Têm dias que estou bem, têm dias que tenho crises. É como aprender a conviver com qualquer outra doença, a diferença está em seus efeitos colaterais. Com a ajuda da minha família e o apoio do meu marido e do meu filho que estiveram sempre ao meu lado, eu tenho certeza que vou conseguir seguir a vida.

13
Mar
09

CRUELDADE

Veterinário responsável por Zôo-Bosque de Pedreira mata pequeno sagui à machadadas

 

Na tarde do dia dez de novembro de 2008, o veterinário responsável pelo Zôo-Bosque Municipal de Pedreira foi chamado para atender um pequeno sagui que vivia solto na mata e estava ferido. Orlando Scharlack Filho examinou o animal que havia sido atacado por um lagarto e estava com uma das patas quebradas e sem ao menos propor algum cuidado ou procurar uma solução prática para cuidar da fratura, em minutos decidiu que o destino do pequeno macaco seria uma morte lenta e dolorosa. Chamou um funcionário do local para segurar o animal e com um machadinho simples de cozinha começou a golpear a cabecinha do sagui que agitado, teve vários cortes pelo corpo antes que a quinta e última tentativa finalmente fosse fatal. Termina aí uma história que poderia ter tido um final diferente se o veterinário em questão, que antes de mais nada teria a obrigação profissional e moral de cuidar e proteger um animal, não preferisse matar para diminuir o trabalho. Mas também começa aqui um novo capítulo que traz à tona outros atos de crueldade que o veterinário vem cometendo no Zôo que podem culminar, junto com a denúncia do assassinato do sagui, numa punição ou até mesmo na perda do registro profissional de Scharlack.

O caso aconteceu quando o administrador do Zôo-Bosque Adauto Cavalcanti de Albuquerque estava viajando e teve conhecimento do ocorrido no dia seguinte aos acontecimentos, quando voltou da viagem. “Assim que pus os pés aqui no bosque os funcionários já vieram me contar o que tinha acontecido. Os estagiários estavam revoltados e eu fui conversar com ele para saber sua versão. Quando Scharlack me disse que não tinha tido outra alternativa eu pedi que ele redigisse um laudo para que eu pudesse encaminhar aos órgãos competentes para julgar sua decisão de decapitar o sagui”, explicou Adauto. O administrador também procurou o promotor público da cidade para saber se poderia ser aberto um processo jurídico contra o veterinário, mas foi aconselhado a encaminhar um relatório para o Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo (CRMV-SP) que teria competência para julgar o profissional e sua decisão.

O relatório foi escrito e encaminhado para também para o departamento jurídico da prefeitura, que não nos permitiu acesso ao documento, mas afirmou que aguarda um parecer do CRMV-SP para poder instaurar uma sindicância sobre o caso e tomar providências. “Não podemos liberar o documento para você, pois o caso ainda não foi concluído e como profissionais de outra área, não temos a capacidade de julgar as decisões tomadas pelo veterinário, portanto estamos aguardando a decisão do CRMV-SP”, disse Silvio Bernardin, advogado da prefeitura de Pedreira. O secretário municipal de meio ambiente, José Vitor Miranda não quis se pronunciar a respeito do caso e disse, assim como Bernardin, que aguarda a decisão do órgão competente.

Na tarde da última quinta-feira, 12, enquanto ainda me encontrava nas dependências do Zôo-Bosque atrás de mais informações, um funcionário do CRMV-SP fez uma visita surpresa no local e em conversa com o administrador, sem concluir as investigações deu seu parecer off-record de que a atitude tomada por Scharlack no tratamento do sagui foi incontestavelmente lamentável e incorreta. Adauto acredita que até o final do mês esse laudo seja concluído. “O que tínhamos para fazer já fizemos, agora precisamos esperar que o CRMV-SP conclua as investigações e tome as medidas necessárias para punir o veterinário que agindo assim, comprova que não tem condições nenhuma de continuar tratando dos animais aqui do Zôo-Bosque”, conclui o administrador.

Quando procurado pela reportagem para expor sua versão dos fatos, Scharlack de modo rude comunicou que só responderia as perguntas se fosse passado para ele por escrito, mas acrescentou que se manifestaria em 15, 30, 60 dias ou quando quisesse, pois sua versão seria dada em juízo e não para a imprensa.

 

DENÚNCIA

Hoje o Zôo-Bosque tem três estagiários de medicina veterinária contratados e durante a tarde que passei no local para apurar os fatos, pude ouvir diversos relatos chocantes sobre o tratamento que Scharlack dá aos animais. “Ele matou uma anta que estava com uma inflamação na boca. Pegou uma injeção e aplicou direto na ferida. O animal caiu duro na hora”, contou o estagiário Luis Marcelo Ricieri Pierini que trabalha há um ano e seis meses no bosque. “Ele não sabe dosar um medicamento. Vai no ‘olhômetro’ e acaba matando animais por extra-dosagem”, acrescentou Pierini. Todos os dias os estagiários são obrigados a ouvir xingamentos por parte do veterinário e contam que são chamados de “boçais” e outros adjetivos por qualquer coisa. “Ele não sabe nem como tratar ‘gente’ como é que pode ter competência para tratar com amor os animais”, disse João Paulo de Albuquerque, outro estagiário do local que conta ainda que enquanto Scharlack está no bosque entre 13h e 16h, nem no ambulatório eles têm permissão de entrar e se algum animal precisar de cuidados, eles são obrigados a esperar até o final do expediente para ter acesso aos medicamentos. “Nós já tivemos que esconder animais doentes dele porque para ele a eutanásia é ainda o melhor remédio. Temos um macaco bugio que estava com hepatopatia devido à idade e alguns tumores que o deixaram doente. Sem titubear ele já queria cortar a cabeça do animal e por um bom tempo tivemos que escondê-lo para que Scharlack não o matasse. Nós tratamos dele e hoje ele está muito bem, ainda tem alguns anos de vida”, contou Albuquerque.

“Outro dia estava aqui no pátio tratando de alguns pássaros quando apareceu uma tartaruga na beira do córrego. Como Scharlack estava próximo dela, eu o avisei que ela poderia cair e pedi para que a retirasse de lá. Ele deu dois passos até ela e com um ‘bicudo’ chutou a tartaruga na minha direção”, contou Albuquerque que relata ainda a denúncia que o veterinário fez a Policia Ambiental, alegando que eram ilegais as obras para construção do Setor Extra, área exigida pelo IBAMA para manutenção de animais que estão em tratamento, pois o local escolhido era de mata protegida e ficava em cima de uma nascente. “Estamos com as obras paradas por causa dele. Não dá para explicar o que tanto lhe incomoda a prosperidade do bosque. A área do Setor Extra não vai danificar nenhuma mata protegida e não fica em cima de nenhuma nascente”, explica o estagiário. Enquanto isso, os animais ficam presos em um setor provisório e insalubre sem garantir 100% de qualidade no tratamento de dezenas de animais que estão sem recintos ou em tratamento. “Sem contar o estado de descaso que se encontra um dos locais mais bonitos da cidade de Pedreira”, acrescenta Carlos Eduardo Ferro Junior, também estagiário de medicina veterinária do Zôo-Bosque.

 

foto-1-sagui2

Sagui decapitado por veterinário era igual a esse e pesava apenas 350gr

01
Nov
08

Profissão: Coveiro

ANÔNIMOS GUARDIÕES DOS MORTOS 

OS PERSONAGENS

Mauro da Conceição, 40 anos, coveiro há três anos.

 

Quando era criança, Mauro tinha o hábito de brincar nos arredores do cemitério de Pedreira onde nasceu. Perambulando por lá, era comum presenciar exumações e enterros, então nunca teve problemas em lidar com esse tipo de trabalho quando apareceu a oportunidade. Em 2003 prestou concurso para o cargo em Jaguariúna e passou, aí começou uma nova vida. Na carteira de trabalho a profissão de coveiro acaba causando certa estranheza nas pessoas. “Muita gente olha com cara de assustado e é normal ficarem perguntando se eu não tenho medo”, disse rindo, se lembrando da curiosidade das pessoas. “Não tenho medo de morto, tenho medo é de vivo”, acrescenta.

 

Antonio Ferreira Martins, 53 anos, coveiro há quatro anos.

 

“No começo, quando chegava do trabalho minha mulher me fazia tirar toda a roupa antes de entrar em casa”, disse Antonio relatando como a escolha da profissão causou certo desconforto na esposa. “Hoje ela já acostumou, até ajuda aqui no cemitério lavando alguns túmulos”, complementa. Antes de prestar concurso, Antonio era tratorista e hoje diz que provavelmente irá se aposentar na profissão. Quando era mais novo, ele nem queria saber de chegar perto de um cemitério, hoje é o lugar onde passa a maior parte do seu dia. “A única coisa ruim aqui é enterrar criança e jovem. Quando acontece, não tem como a gente também não se comover”, contou.

 

 

FÉ E PROFISSÃO

A profissão de coveiro exige muita fé. Lidar todos os dias com a morte pode acabar não sendo saudável para quem não tem crença nenhuma, como afirmou Mauro. “É comum no começo você ficar um pouco impressionado com o que vê, mas com o tempo e com a rotina tudo acaba ficando banal, mas é importante você crer em alguma coisa”, disse Mauro. Ele e o companheiro de trabalho são evangélicos e sempre que podem, costumam fazer orações para que todo espírito negativo de morte passe longe deles. “O mais importante para se trabalhar nesse serviço, é estar bem de espírito com Deus. Uma pessoa fraca não vai trabalhar direito, vai ficar impressionada. Temos que acreditar em Deus né, o resto a gente vai levando como pode”, me contou Antonio quando lhe perguntei se ele não tinha medo de assombrações, um assunto muito questionado por muita gente que fica sabendo que são coveiros. “Tem gente que tem medo de cemitério, mas isso aqui é uma paz, os mortos não estão aqui, só os restos mortais”, completou Antonio.

A morte não os assusta. Talvez por estarem todos os dias em contato direto com ela, aprendem a lidar mais fácil com o que consideram apenas mais uma etapa da vida. “O assunto aqui é só morte. Fulano que morreu, beltrano que está para morrer, então fica difícil fugir disso. Mas fora daqui a gente procura esquecer um pouco o assunto”, disse Mauro que costuma ouvir pessoas que vão visitar os túmulos e lamentam a perda dos entes queridos e gostam de contar como eram quando estavam vivos, e assim, vai acumulando uma bagagem de histórias tristes, histórias de perda, mas também histórias emocionantes. “Outro dia chegou um senhor aqui que queria encontrar o túmulo de um primo que havia morrido há muitos anos ainda criança. Eu o ajudei a achar o local onde o menino estava enterrado e era de chão batido. Uma semana depois ele voltou e mandou construir uma pequena caixa de cimento, colocou uma foto e uma dedicatória. Depois disse que poderia morrer em paz, pois tinha de alguma forma, perpetuado a memória do primo”, contou Mauro que afirma que essa foi uma das histórias mais bonitas que presenciou no cemitério.

Trabalhar o emocional pode ser difícil ao lidar com a dor, com a perda, conseqüências que a morte traz. Antonio que perdeu um filho de seis meses a alguns anos diz que o mais difícil é trabalhar em enterros de crianças e seus olhos se encheram de lágrima ao contar sobre o enterro de uma menina de cinco anos que teve que participar. “Quando cheguei no velório e vi a menina, parecia uma boneca, linda, linda. Voltei vinte anos atrás e revivi tudo de novo. Não consegui trabalhar naquele enterro, pedi para que outros fossem no meu lugar”. Antonio disse ainda que a fé em Deus o ajudou muito quando perdeu o filho e sempre que vê a dor das famílias que perdem um ente querido, ele entende o sofrimento e ora todos os dias para que Ele possa confortar o coração das pessoas. “Lidar com a morte não é fácil, mas precisamos ter força para continuar, pois a morte não é o fim”, acredita o coveiro.

 

TRABALHO EM EQUIPE

“Nós somos uma irmandade mesmo. Se acontece alguma coisa entre nós, resolvemos entre nós. Damos bronca, brincamos, nos ajudamos e compartilhamos muitas histórias também”, disse Mauro, o mais brincalhão de todos. “Ele gosta de brincar e vira e mexe tem gente com flor enroscada no bolso passando vergonha ao andar por aí”, entregou Antonio sobre o colega de trabalho. Dono de um talento artístico, um dos passa tempos de Mauro é o desenho. Sempre que acontece algum fato engraçado ele corre pegar um papel e um lápis para registrar a cena. “Ainda bem que todo mundo entende que é brincadeira, porque a gente já vê aqui tanta tristeza, então temos que saber tirar vantagem das coisas engraçadas que acontecem”, explica Mauro.

Histórias engraçadas não faltam, o que falta às vezes é tempo para Mauro desenhar tudo. “Um fato engraçado que a gente teve aqui foi quando tivemos que exumar um corpo e o senhor ainda estava com a pele intacta. Na hora a gente levou um susto porque já estava enterrado há anos, mas aí quando o colocamos na carriola para transportá-lo, o corpo que não estava rijo começou a balançar de um lado para outro, balançando a cabeça, os braços, as pernas (risos) parecia que estava falando e gesticulando nervosamente”, contou Mauro segurando o riso ao se lembrar do ocorrido.

No dia a dia de trabalho, os coveiros se deparam com muita coisa e sempre quando existe algum serviço mais difícil, todos acabam colaborando. “Tem um serviço que a gente chama de “porquidade”, que não existe no dicionário, nós que criamos aqui para quando a gente tem que exumar um corpo que ainda está em decomposição e é uma tarefa mais nojenta né, nesses trabalhos vem todo mundo, coveiro, pedreiro, porque aqui a gente é uma equipe e sempre acabamos fazendo um pouco de tudo”, disse Mauro ao contar sobre a o caso da exumação de um corpo que ainda estava em estágio de decomposição e todos os funcionários ajudaram no trabalho.

Quando há tarefas assim, todos utilizam equipamentos de segurança como luvas, botas e máscaras para não correrem o risco de contaminação. “Não vemos nosso trabalho como uma coisa suja. Pode ser estranho para muita gente, mas apesar de termos um adicional de salubridade por estarmos sujeitos a contaminações, é raro quando temos trabalhos como exumação de corpos que morreram recentemente, só em casos judiciais”, disse Mauro. “É, mas mesmo assim, tem gente que ainda tem um certo preconceito sabe. Eu mesmo tem um conhecido meu que não pega na minha mão”, complementa Antonio que ainda brinca com a situação ao dizer que leva na esportiva e sempre dá um jeito de quebrar o gelo. “Acabo levando numa boa. Tem vez que fico enchendo o saco dele e brinco ‘pega na minha mão que hoje não encostei em defunto não’ e chego bem pertinho mesmo”, contou rindo o coveiro.

 

FUTURO

Ser coveiro pode não ser a profissão dos sonhos de ninguém, mas também não é a pior profissão do mundo. “Dou graças a Deus por ter conseguido esse emprego. Eu acredito que tenho capacidade para tentar outra coisa, um emprego melhor, mas gosto do que faço. A gente acostuma e enquanto eu ainda estiver conseguindo sustentar a minha família eu vou continuar aqui sim”, afirmou Mauro que apesar de ter o hobby de desenhar e segundo os colegas de trabalho ser um grande desenhista, ser coveiro não é nenhuma função desmerecedora. “É claro que sempre vai ter gente que vai me olhar torto, achar estranho eu gostar de ser coveiro, de trabalhar com a morte, mas eu não tenho do que reclamar, é uma profissão como qualquer outra e vivemos em sociedade onde um precisa do outro, eu faço com orgulho meu trabalho aqui”, conclui o orgulhoso coveiro.

            Antonio também gosta do que faz, mas se tivesse uma oportunidade para tentar um cargo onde o salário fosse melhor, ele tentaria. “Acho que vou me aposentar aqui por já estou velho, mas se tivesse a chance de fazer algum curso e tentar uma outra carreira eu iria, mas não reclamo daqui não. Agradeço a Deus pelo meu emprego e faço meu trabalho com prazer”, disse.

 

30
Out
08

Entrevista 1

Mário Prata

Ao chegar à Feira do Livro de Jaguariúna para a entrevista com o escritor Mário Prata me disseram que teria que conversar com ele antes da palestra porque ele era uma pessoa ‘difícil’, de mau humor. Já fiquei apreensiva e me preparei para ser mais direta e rápida possível, não queria correr o risco de levar um fora do Mário Prata!

Estava na sala de imprensa da Feira quando a assessora se aproximou de mim e disse:

_ Mauren vamos lá o Mário Prata chegou.

Ao olhar para fora, vi um homem de meia idade vestido modestamente conversando com o organizador.

_ Aquele é o Mário Prata? – perguntei meio descrente.

A assessora e as outras pessoas me confirmaram e lá fui eu com medo do homem. O cumprimentei e junto com outra repórter começamos a entrevista. Logo nas primeiras palavras eu fui mudando a primeira impressão que captei por informações de terceiros, ele não tinha nada de antipático e nem de difícil. Era sorridente e brincalhão, respondia às perguntas com uma simpatia muito natural. Com sua espontaneidade encontrava sempre alguma coisa engraçada para encaixar nas respostas. Numa das perguntas feitas pela outra repórter sobre como tinha sido seu trabalho na Rede Globo quando escreveu novelas para a emissora, ele respondeu direto.

_ Um porre! Fiquei dois anos preso na história daquele monte de personagens e o pior, sabe aquelas mulheres gostosas que trabalham lá? Não ‘comi’ nenhuma!

Mais sincero, só quando respondeu que estava na Feira pelo cachê.

Mário Prata chegou a vontade como se estivesse a caminho da praia. De camiseta, bermuda e chinelos ‘Havaianas’ ele subiu no palco para iniciar a palestra e contou como tinha sido abordado pelo motorista ao sair de São Paulo.

_ O senhor vai assim? – narrou ele imitando a cara de espanto do empregado. E claro que no mesmo tom veio a reposta.

_ O que você tem a ver com isso? Quem vai falar sou eu e não a minha roupa. – contou ele para uma platéia que já não segurava mais o riso.

Mário Prata é assim, ele mesmo. Não teve pudor ao dizer que já tinha usado maconha, que já tinha feito muita coisa errada durante a vida e confirmando sua rebeldia acendeu um cigarro durante a palestra sem muita cerimônia.

_ Os EUA têm uma política linha dura contra o fumo e eu como gosto de contrariar o Bush vou acender um cigarro – disse o escritor abrindo um sorriso caricaturado.

Nascido em Uberaba no estado de Minas Gerais e criado em Lins no interior de São Paulo, Mário Alberto Campos de Morais Prata hoje com 62 anos falou que pretende lançar em breve um livro intitulado “O homem de 60” se referindo às pessoas de 60 anos hoje que viveram na década de 60, quando segundo o escritor tudo aconteceu.

_ Entre 1958 e 1968 aconteceu tudo que tinha para acontecer no mundo, nem antes e nem depois aconteceram fatos tão importantes. O homem chegou à lua. A seleção brasileira foi três vezes campeã mundial no futebol. Vivemos numa época de luta pelos direitos durante o Regime Militar no país. Surgiram os Beatles na Inglaterra e a Tropicália no Brasil. Depois disso, mais nada aconteceu. Sinto como se vivêssemos num mundo onde as pessoas se acomodaram e isso é muito ruim.

Como não podia faltar, Prata também falou de sua participação na 1ª Feira do Livro de Jaguariúna, mas mesmo quando fala sério ele rodeia para incluir uma sincera e engraçada questão.

_ Para mim é um prazer estar aqui na palestra. Claro que estou feliz pelo cachê que eu ganhei, mas também posso unir o útil ao agradável e contribuir para que com meu trabalho eu incentive alguém para conhecer o maravilhoso mundo das palavras – disse em tom de brincadeira o sempre sorridente Mário Prata.

30
Out
08

Entrevista 2

Maurício Kubrusly

Maurício Kubrusly conseguiu reunir a maior platéia de todas as palestras que aconteceram durante a 1ª Feira do Livro realizada pela prefeitura de Jaguariúna. Talvez por ser um repórter da maior emissora brasileira de televisão ou talvez por ser dono de um grande carisma, coisa que conseguiu e não provar durante sua passagem pela cidade. Explicando: ele não é tão simpático quanto parece na televisão e por vezes deixa a rabugice tomar conta de sua áurea global. “Mais uma foto?”, “o som está muito agudo”, “não podem me filmar”, “mas está muito claro aqui, podem apagar as luzes?” e por aí vai. Talvez esteja acostumado com a grande eficiência de sua “patroa”, mas contraria tudo o que disse sobre admirar a gente simples e verdadeira de todos os cantos do Brasil.

Primeiras impressões à parte, Kubrusly é um grande repórter e mostrou que não conseguiu um espaço de destaque no horário nobre do domingo a noite por ser dono de belos olhos. Ele possui o “feeling” jornalístico que todos nós gostaríamos de ter. Sabe o que é uma boa matéria. Reconhece uma boa história quando se depara com ela e num estilo único e discontraído apresenta o quadro mais famoso do Fantástico.

Durante a palestra, além de apresentar alguns vídeos que produziu ao longo de anos trabalhando no quadro “Me Leva Brasil” do programa dominical da Rede Globo, ele também falou de suas experiências como repórter que põe a mão na massa e sai da mesmice para ir conhecer gente de todo tipo espalhada por esse Brasil. “Eu já estive em todos os Estados do Brasil e quando fui fazer o me Leva Brasil pude conhecer toda a diversidade cultural que é espetacular. Em muitos lugares, fora do eixo Rio-SP, a pessoa é o que ela é sem se deslumbrar em aparecer na televisão”.

Para não deixar de fora o foco do evento que é a literatura, Kubrusly levou alguns exemplares de seu livro inspirado nas mais diversas aventuras que registrou nos 400 mil quilômetros percorridos pelo país. “Me leva Brasil – A Fantástica Gente de Todos os Cantos do Brasil” foi lançado como parte das comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil e até hoje leva ate às pessoas as mais incríveis histórias descobertas pelo repórter. “O ato de ler é muito prazeroso e importante, portanto qualquer iniciativa que vai para esse lado do incentivo à leitura como esta primeira feira, eu sou a favor, dou o meu apoio e sempre que possível estarei presente”.

 

30
Out
08

Entrevista 3

Daniel Piza: Homenagem a Machado

O escritor, colunista e editor do jornal Estado de São Paulo, Daniel Piza esteve presente na 1ª Feira Nacional do Livro de Jaguariúna no dia 23 com uma palestra em comemoração ao centenário de morte do escritor brasileiro Machado de Assis. O palestrante lançou recentemente uma biografia sobre um dos autores mais importantes da literatura nacional e contou um pouco da história de Machado para um público curioso que conhece as obras, mas desconhece a vida do escritor a qual influenciou muito as histórias criadas – que em sua maioria são cercadas por um realismo muitas vezes incomum nos livros de ficção.

Para muitos leitores que consideram Machado um pessimista, conhecer um pouco sobre sua vida pessoal é essencial para entender o rumo de muitas de suas criações. “Muita gente pode torcer o nariz quando é obrigado a ler Machado na escola, mas não basta só ler sua obra, tem que entender o contexto. Ele não era pessimista, ele era um homem reservado, uma pessoa que se preocupava muito em entender a complexidade das coisas. Talvez por esse motivo, por não ter sido um homem cheio de sentimentalismo, haja essa incompreensão de muitas pessoas em relação às suas obras”, afirmou o jornalista.

Começar a entender o escritor é para Piza uma tarefa de admiração, e como seus livros sempre são um dos primeiros que as pessoas lêem na vida, devido à obrigatoriedade nas escolas, é um passo importante para incentivar a leitura num país em que ainda se lê muito pouco. “As pessoas estão se atraindo cada vez mais pela leitura, mas o Brasil ainda tem muito para andar e esse tipo de iniciativa, de se organizar feiras sobre livros e passar um pouco para as pessoas a nossa experiência com a literatura é essencial para incentivar cada vez mais a leitura. Ler Machado pode ser a porta de entrada para um mundo repleto de histórias fantásticas que estão guardadas nos livros”, conclui Piza.




 

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